Eu posso senti-lo no raio de quilômetros
Sem olhar, sem perceber, sem tocar você.
Sua pele me vem dissolvida na inclemência do ar revolto, esporos do seu corpo...
Imaterialidade atravessando minha carne, e, antes de vê-lo, eu já o quis.
A escala de sua voz penetra-me como sexo e rompe as membranas
Auditivas.
Tenho medo por mim,
Mas não sou tão indefesa quanto quero.
Assim, tenho pressa de estar longe,
Porquanto procure seus vestígios a todo instante,
Em todo canto
De sereias imaginárias e faunos traiçoeiros.
Se cravasse minhas garras ferinas em seu dorso
Arrancaria não seu sangue, mas sua alma
Com a força de minha estocada abandonadamente viscosa,
Potencialmente carmesim e mesquinha,
No negrume de um desejo que o deseja aprisionado somente para mim,
Na profundidade de um temor que é tê-lo e não o ter.
Você é minha obra, meu mais perfeito trabalho.
Criei cada idéia de você, cada nuance e fagulha
Inspirada por um átimo de luxúria induzido por um relance de cabeça e sua voz.
Você é árido, silente e sibilino,
Sabendo o quanto seus instintos arranham meus instintos
E querendo isso,
Mesmo não querendo nada além disso.
Arranhar minha calma porque não pode ir além das imagens e soslaios,
Não pode me tocar
De sua posição intocável,
Da sua vida de homem social com vida social.
Meu faro é bom, eu sei de seus caminhos obscuros,
Mas vamos ficar deslizando nos muros de contenção de um desejo
Mútuo, que não se engana,
Porque somos humanos e seguimos a lógica ilógica
Que vai contra o que nos consome em chamas.
quarta-feira, 2 de abril de 2008
sábado, 16 de fevereiro de 2008
MINHA REDENÇÃO

Nasci bonita e perfeita dos corpos perfeitos de papai e mamãe,
Casa perfeita, vida perfeita vista pelo olhar social.
Cabeças e emoções tortas, no entanto, talham a mortalha, criança natimorta
Aprendendo a viver por si desde a manchada concepção,
Impelida para fora do ventre hostil sem pedir, sem querer,
Sem escolher nascer num mundo costurado para esconder suas imperfeições
Buscando a beleza no imaculado impossível,
Dos vivos fazendo títeres de bocas fendidas em risos vazios.
Eu, quase aborto, a filha desejada como peça de um jogo de efeito
Para encher o peito do orgulho tonto de cumprir
O papel roto escrito por todos os mortos em vida,
Talhado pela mão sinistra do contrato social,
Cuspido por bocas ensinadas a falar igual,
Sempre igual,
Sempre igual,
Sempre igual.
Por que se casaram, meus pais, se o medo urdiu o laço
Que os atou na sucessão de tempos de rançoso rancor,
Odiosos braços a rogar aos céus o consolo comprado a dinheiro
Em lojas da moda, em restaurantes caros,
Nos tapas que me jogaram e aos meus irmãos num desespero baço e roufenho
Enquanto tateávamos com nossas pequenas mãos inocentes
O caminho de cacos de vidro?
Enquanto cambaleávamos, mal saídos do engatinhar,
Pelos espinhos venenosos de uma trilha selvagem e não desbravada
Por vocês, que deviam ser nossos guias no início da jornada,
Mas tornaram-se os algozes?
Como posso eu odiá-los, porém?
Como posso pedir aos céus suas cabeças fincadas em postes
Para servir de exemplo aos outros?
Não posso culpá-los por serem inábeis, isentos da intenção de ferir,
E quanto mais esfrego os olhos ensopados do sal molhado que eu preferia não verter
Melhor enxergo que vocês nunca deixaram de ser filhos,
Assustados, acuados em um mundo mesquinho que é este em que também nasci,
Mas vocês continuam dando volta ao redor de seus umbigos.
E penso nas crianças que vocês foram
E lembro das histórias de meus avós
E vejo que não posso sentir nada além de dó em vez de rancor,
De amor em vez de ódio
E não há sequer o que perdoar
Porque vocês tentaram o seu melhor e isso não é pouco.
Eu sonho noites seguidas, vocês aninhados em meu colo,
Eu criança ainda, vocês adultos,
No entanto, sou muito maior que ambos
E vocês estão dormindo em meus braços,
Ninados, tranquilos.
Beijo suas testas, fosse eu a mãe,
Vocês já não sofrem.
Acordo, transtorno em gotas na nuca, na testa, nos olhos,
Um grito deglutido e meio torto:
Eu gostaria de redimi-los, de fazê-los esquecer o horror da infância e da perda da infância,
Mas não posso.
Não os culpo pelo que sofri
Por sua omissão ou excessos,
Pelas idéias falsas de criar bezerros em vez de gente,
Por não dar ouvidos às minhas dores insones e prantos amargos.
A dor, no entanto, continua aqui,
Lancinando minha voz quase histérica na tentativa de esconder as quelóides de anos
carcomidos,
Moldando meus passos em busca de um lugar novo para mim
Que não o mundo patético em que nasci e vivo.
Eu quero antes afirmar com todas as forças de todas as letras o quanto os amo
Por vocês serem fracos e falhos e, ainda assim, terem tido a coragem de tentar.
Graças a vocês, eu nasci
E sobre todas as dores não desisto da intensa experiência de estar aqui
E já singrei tantas ondas e me maravilho e me estupefaço sempre.
Eu os amo, nunca duvidem ou esqueçam.
Tentei ajudar meu irmão no começo da trilha,
Mas, criança terrivelmente impertinente,
Perdeu-se e ainda está lá,
Rodeado de espinhos e tão ferido que rezo a Deus todos os dias para ele encontrar
Um nicho de conforto
Como minha irmã,
Que formou sua célula de proteção e carinho.
Não se iluda a platéia desatenta
Ao olhar aflita para meu irmão coberto de cicatrizes,
Passarinho a mover asas trituradas sem poder voar.
Se ele abraçar a calma e o tempo, voltarão os movimentos,
Ele soube se manter miraculosamente vivo em meio a quinhentos tufões e não há de
sucumbir agora,
A calmaria se avizinha.
Eu tive de aprender a golpes de faca,
Eu tive de aprender no corte da navalha,
Fui boa até aqui, escondendo a dor no esgar de sorrisos traiçoeiros
Para mim, comigo,
Fingindo não ser a besta-fera em que me converti
Pela lancinante aflição a cada fração de segundo,
Nenúfar esfuziante e doce sulcado por garras de metal e súlfur.
Eu menti e disse sim um sem número de vezes,
Pedi para morrer quando tudo o que quis foi proferir ditames escabrosos,
Trazer à tona minha vontade malsã.
Eu quero que a humanidade se foda, morra calcinada,
Ovelha desgarrada e embebida em sangue pavorosamente putrefeito.
Atiro aos insidiosos solícitos que querem apenas o circo do sacrifício alheio
Um grito aquilino, ímpio, o tumor latente aqui dentro.
Desgarro minhas entranhas afora, estranha explosão, carnes virulentas a mostrar de modo
inegável e cruel
Tudo o que suporto, espartilhos de navalha atravessando a pele, os órgãos.
Eu sou a chaga viva esmerilhada, carne moída, remendada viva e por todos pisoteada,
Sou a caixa de Pandora, a quem todos, em pânico, viraram a cara,
Atirando aos olhos loucos de pavor
Minha prece gutural e encarquilhada, urro ensurdecedor
De fel, de cianureto, de soda cáustica.
Eu sou a carne pulsante de um bicho aniquilado, pútrido, horrendo,
Fétido enxame de insetos a inocular sues vermes incontáveis pelas tripas expostas,
Corpo virado ao avesso, de dentro para fora.
Sonolenta, desperto do pesadelo,
O horror e a peste foram embora.
Esgotada, novamente adormeço
E com a alvorada flutuo no ar, pétala rara
Flanando suave por ventos úmidos de orvalho bom,
A humanidade chora aliviada, redimida
Com minha cura.
Sou doce e serena e estou em mim,
Lágrima clara e pura.
30/1/08
Casa perfeita, vida perfeita vista pelo olhar social.
Cabeças e emoções tortas, no entanto, talham a mortalha, criança natimorta
Aprendendo a viver por si desde a manchada concepção,
Impelida para fora do ventre hostil sem pedir, sem querer,
Sem escolher nascer num mundo costurado para esconder suas imperfeições
Buscando a beleza no imaculado impossível,
Dos vivos fazendo títeres de bocas fendidas em risos vazios.
Eu, quase aborto, a filha desejada como peça de um jogo de efeito
Para encher o peito do orgulho tonto de cumprir
O papel roto escrito por todos os mortos em vida,
Talhado pela mão sinistra do contrato social,
Cuspido por bocas ensinadas a falar igual,
Sempre igual,
Sempre igual,
Sempre igual.
Por que se casaram, meus pais, se o medo urdiu o laço
Que os atou na sucessão de tempos de rançoso rancor,
Odiosos braços a rogar aos céus o consolo comprado a dinheiro
Em lojas da moda, em restaurantes caros,
Nos tapas que me jogaram e aos meus irmãos num desespero baço e roufenho
Enquanto tateávamos com nossas pequenas mãos inocentes
O caminho de cacos de vidro?
Enquanto cambaleávamos, mal saídos do engatinhar,
Pelos espinhos venenosos de uma trilha selvagem e não desbravada
Por vocês, que deviam ser nossos guias no início da jornada,
Mas tornaram-se os algozes?
Como posso eu odiá-los, porém?
Como posso pedir aos céus suas cabeças fincadas em postes
Para servir de exemplo aos outros?
Não posso culpá-los por serem inábeis, isentos da intenção de ferir,
E quanto mais esfrego os olhos ensopados do sal molhado que eu preferia não verter
Melhor enxergo que vocês nunca deixaram de ser filhos,
Assustados, acuados em um mundo mesquinho que é este em que também nasci,
Mas vocês continuam dando volta ao redor de seus umbigos.
E penso nas crianças que vocês foram
E lembro das histórias de meus avós
E vejo que não posso sentir nada além de dó em vez de rancor,
De amor em vez de ódio
E não há sequer o que perdoar
Porque vocês tentaram o seu melhor e isso não é pouco.
Eu sonho noites seguidas, vocês aninhados em meu colo,
Eu criança ainda, vocês adultos,
No entanto, sou muito maior que ambos
E vocês estão dormindo em meus braços,
Ninados, tranquilos.
Beijo suas testas, fosse eu a mãe,
Vocês já não sofrem.
Acordo, transtorno em gotas na nuca, na testa, nos olhos,
Um grito deglutido e meio torto:
Eu gostaria de redimi-los, de fazê-los esquecer o horror da infância e da perda da infância,
Mas não posso.
Não os culpo pelo que sofri
Por sua omissão ou excessos,
Pelas idéias falsas de criar bezerros em vez de gente,
Por não dar ouvidos às minhas dores insones e prantos amargos.
A dor, no entanto, continua aqui,
Lancinando minha voz quase histérica na tentativa de esconder as quelóides de anos
carcomidos,
Moldando meus passos em busca de um lugar novo para mim
Que não o mundo patético em que nasci e vivo.
Eu quero antes afirmar com todas as forças de todas as letras o quanto os amo
Por vocês serem fracos e falhos e, ainda assim, terem tido a coragem de tentar.
Graças a vocês, eu nasci
E sobre todas as dores não desisto da intensa experiência de estar aqui
E já singrei tantas ondas e me maravilho e me estupefaço sempre.
Eu os amo, nunca duvidem ou esqueçam.
Tentei ajudar meu irmão no começo da trilha,
Mas, criança terrivelmente impertinente,
Perdeu-se e ainda está lá,
Rodeado de espinhos e tão ferido que rezo a Deus todos os dias para ele encontrar
Um nicho de conforto
Como minha irmã,
Que formou sua célula de proteção e carinho.
Não se iluda a platéia desatenta
Ao olhar aflita para meu irmão coberto de cicatrizes,
Passarinho a mover asas trituradas sem poder voar.
Se ele abraçar a calma e o tempo, voltarão os movimentos,
Ele soube se manter miraculosamente vivo em meio a quinhentos tufões e não há de
sucumbir agora,
A calmaria se avizinha.
Eu tive de aprender a golpes de faca,
Eu tive de aprender no corte da navalha,
Fui boa até aqui, escondendo a dor no esgar de sorrisos traiçoeiros
Para mim, comigo,
Fingindo não ser a besta-fera em que me converti
Pela lancinante aflição a cada fração de segundo,
Nenúfar esfuziante e doce sulcado por garras de metal e súlfur.
Eu menti e disse sim um sem número de vezes,
Pedi para morrer quando tudo o que quis foi proferir ditames escabrosos,
Trazer à tona minha vontade malsã.
Eu quero que a humanidade se foda, morra calcinada,
Ovelha desgarrada e embebida em sangue pavorosamente putrefeito.
Atiro aos insidiosos solícitos que querem apenas o circo do sacrifício alheio
Um grito aquilino, ímpio, o tumor latente aqui dentro.
Desgarro minhas entranhas afora, estranha explosão, carnes virulentas a mostrar de modo
inegável e cruel
Tudo o que suporto, espartilhos de navalha atravessando a pele, os órgãos.
Eu sou a chaga viva esmerilhada, carne moída, remendada viva e por todos pisoteada,
Sou a caixa de Pandora, a quem todos, em pânico, viraram a cara,
Atirando aos olhos loucos de pavor
Minha prece gutural e encarquilhada, urro ensurdecedor
De fel, de cianureto, de soda cáustica.
Eu sou a carne pulsante de um bicho aniquilado, pútrido, horrendo,
Fétido enxame de insetos a inocular sues vermes incontáveis pelas tripas expostas,
Corpo virado ao avesso, de dentro para fora.
Sonolenta, desperto do pesadelo,
O horror e a peste foram embora.
Esgotada, novamente adormeço
E com a alvorada flutuo no ar, pétala rara
Flanando suave por ventos úmidos de orvalho bom,
A humanidade chora aliviada, redimida
Com minha cura.
Sou doce e serena e estou em mim,
Lágrima clara e pura.
30/1/08
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008
DUAS ELEGIAS

PRAÇA PÚBLICA
Perder-me talvez jamais pudesse,
Sei que não posso.
O talvez é só para nublar
A dor de ser
Irremediavelmente.
Entranha adentro, não há nada a fazer.
Seguir existindo, sentindo
A trombose rápida:
A carne desfalece,
Esfacela-se, apodrece.
A necrose do ser social
Que me tornei,
Mas que nunca seria outro,
Cresta-me a alma
Escusa por julgar-se suja,
Por jogar a culpa nos ombros,
Por se armar de tantos sonhos falsos
Sem na verdade tê-los almejado.
Caminha, desgovernada,
Vestida de mortalha
Que finjo abominar,
Mas busco.
E no lusco-fusco da vida sem controle
Controlar-me arremedo
E o medo me arde,
A faca na carne late
O que teimo em não ver:
A mentira da dor covarde
Em querer o não-querer.
Para parar, sentar
E levar a vida qual espectador teatral
Que vê no outro a farsa,
Que vê em si a mordaça,
Mas qual! Posta por si em si mesmo.
É o que mereço?
Posso ir além disso?
Claro.
Mas forjando o precipício
Abissínio,
Transformando o desatino
Em fato,
Como que mato meu destino.
Como o que mato, o meu filho.
Como o que mato em mim,
Autofágico assassino
Que ri
Gozando a própria desgraça
Forjada em praça pública.
E quem não tiver pecado
Que julgue,
Quem não se sente culpado
Que mude.
Quem não ficar parado,
Ataúde,
Há de ser alforriado,
Amém.
22/1/02
Perder-me talvez jamais pudesse,
Sei que não posso.
O talvez é só para nublar
A dor de ser
Irremediavelmente.
Entranha adentro, não há nada a fazer.
Seguir existindo, sentindo
A trombose rápida:
A carne desfalece,
Esfacela-se, apodrece.
A necrose do ser social
Que me tornei,
Mas que nunca seria outro,
Cresta-me a alma
Escusa por julgar-se suja,
Por jogar a culpa nos ombros,
Por se armar de tantos sonhos falsos
Sem na verdade tê-los almejado.
Caminha, desgovernada,
Vestida de mortalha
Que finjo abominar,
Mas busco.
E no lusco-fusco da vida sem controle
Controlar-me arremedo
E o medo me arde,
A faca na carne late
O que teimo em não ver:
A mentira da dor covarde
Em querer o não-querer.
Para parar, sentar
E levar a vida qual espectador teatral
Que vê no outro a farsa,
Que vê em si a mordaça,
Mas qual! Posta por si em si mesmo.
É o que mereço?
Posso ir além disso?
Claro.
Mas forjando o precipício
Abissínio,
Transformando o desatino
Em fato,
Como que mato meu destino.
Como o que mato, o meu filho.
Como o que mato em mim,
Autofágico assassino
Que ri
Gozando a própria desgraça
Forjada em praça pública.
E quem não tiver pecado
Que julgue,
Quem não se sente culpado
Que mude.
Quem não ficar parado,
Ataúde,
Há de ser alforriado,
Amém.
22/1/02
INEXPLICAR
Não quero desenhar o aleatório
Na busca resfolegante por meu eu.
Os ombros tórridos,
Tonitruante bálsamo do insano útero,
A gota túrgida
Do que jamais em palavras poderia capturar
É o que canto em sacra devoção.
E, a cada nota solta, uma outra escapa
Completamente ao tom,
Finalmente à razão.
Em cada bor-botão de flor,
Cascata de lava,
O que está em jogo
É o não dizer,
É sempre o não.
Quimeras, sofro não,
Quisera eu poder estar em tudo
E assim falar.
Mas em tudo estou,
Como um Deus caído de lá,
Que para lá caminha,
E do tudo em que estou,
No entanto,
Nada posso falar.
Assim seja, então,
Amém,
Boquirroto afônico
A gritar na freqüência canina,
Animal,
A qual os humanos não alcançam com os ouvidos.
Que meus grunhidos
Arranhem
Então
As entranhas.
Que as estranhas sílabas sonoras,
Ao tímpano e ao labirinto anatômico estranhas,
Rasguem carnes imateriais,
Estalem os ossos por dentro,
Que sejam o alimento do extrato obscuro
Por trás dos muros concretos das raízes do eu sei,
Eu sou,
Eu tenho,
Eu tenho que.
Cambalear sem dor, sem medo,
À beira do mais assustador abismo,
Sabendo que é disso que tenho tanto em mim.
Não posso ignorar o árduo chamado
Que me impele a ser solta, a ser louca
E a deixar de ser louca,
A ser lontra inexplicável
No lago do sem fim.
20/8/02
Não quero desenhar o aleatório
Na busca resfolegante por meu eu.
Os ombros tórridos,
Tonitruante bálsamo do insano útero,
A gota túrgida
Do que jamais em palavras poderia capturar
É o que canto em sacra devoção.
E, a cada nota solta, uma outra escapa
Completamente ao tom,
Finalmente à razão.
Em cada bor-botão de flor,
Cascata de lava,
O que está em jogo
É o não dizer,
É sempre o não.
Quimeras, sofro não,
Quisera eu poder estar em tudo
E assim falar.
Mas em tudo estou,
Como um Deus caído de lá,
Que para lá caminha,
E do tudo em que estou,
No entanto,
Nada posso falar.
Assim seja, então,
Amém,
Boquirroto afônico
A gritar na freqüência canina,
Animal,
A qual os humanos não alcançam com os ouvidos.
Que meus grunhidos
Arranhem
Então
As entranhas.
Que as estranhas sílabas sonoras,
Ao tímpano e ao labirinto anatômico estranhas,
Rasguem carnes imateriais,
Estalem os ossos por dentro,
Que sejam o alimento do extrato obscuro
Por trás dos muros concretos das raízes do eu sei,
Eu sou,
Eu tenho,
Eu tenho que.
Cambalear sem dor, sem medo,
À beira do mais assustador abismo,
Sabendo que é disso que tenho tanto em mim.
Não posso ignorar o árduo chamado
Que me impele a ser solta, a ser louca
E a deixar de ser louca,
A ser lontra inexplicável
No lago do sem fim.
20/8/02
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008
O SAL DA LÁGRIMA

Remoer cada gosto,
O bolo no estômago,
O momento pronto em que me feriste,
Não é de bom alvitre,
Não salva a minha carne
Essa recusa mole
Que nada mais é que o certo.
Saber, soube todo o tempo.
Palavra empenhada,
Ungüento na carne cortada,
Como se pudesse ser o que mentiste.
Como pode ser tão tristemente menino,
Olhando o próprio umbigo
Por toda a vida,
Enquanto me perdeste em fraturas no abismo
Da tua desconsideração?
Rolar, ardido, pelos sulcos esculpidos em meu rosto,
O sal da lágrima
Escorrida a contragosto.
Queria ignorar a batida, a porrada,
Ser amada como eu quis,
Mas quanto quero mesmo ser amada?
Olho para ti
Pelo espelho do que me vejo.
Não sei o que penso,
Não sei o que dentro,
Alfabeto místico perdido na fome de te ter
Sem saber como é isso.
9/12/01
O bolo no estômago,
O momento pronto em que me feriste,
Não é de bom alvitre,
Não salva a minha carne
Essa recusa mole
Que nada mais é que o certo.
Saber, soube todo o tempo.
Palavra empenhada,
Ungüento na carne cortada,
Como se pudesse ser o que mentiste.
Como pode ser tão tristemente menino,
Olhando o próprio umbigo
Por toda a vida,
Enquanto me perdeste em fraturas no abismo
Da tua desconsideração?
Rolar, ardido, pelos sulcos esculpidos em meu rosto,
O sal da lágrima
Escorrida a contragosto.
Queria ignorar a batida, a porrada,
Ser amada como eu quis,
Mas quanto quero mesmo ser amada?
Olho para ti
Pelo espelho do que me vejo.
Não sei o que penso,
Não sei o que dentro,
Alfabeto místico perdido na fome de te ter
Sem saber como é isso.
9/12/01
terça-feira, 5 de fevereiro de 2008
EPOPÉIA

Bordando entre dedos de ossos duros, luzidios,
Com fios de sangue, minha vida,
Vi no cerne do novelo fluido seu rosto.
Eu vi.
Tremor tênue, como bico, passarinho,
Ali entendi meu destino amarrado a ti,
Irremediavelmente atrelado,
Como unha na carne,
Como minhas unhas, cornos
Desembainhando nos ossos grossos
O que havia por vir.
Fogo roçou costelas,
Tocou o grelo e pêlos:
Era tua mão de brasas.
À posse, impossível resistência.
Rasgaste-me a carne,
A consciência e a visão,
O gozo tomando tudo que é poro
Os fios de sangue plangendo lerdos.
Roubaste-me o centro,
Mas tornei a roubar-me de ti
Para assim amar-te em verdade.
Garganta, melaço na goela,
Queres a birra,
Preferes-me escrava
A amar-te plena.
Ao notar-me senhora dos fios de plasma ebúrneo,
A tessitura a te enredar suavemente,
Buscaste a brusca ruptura
Do meu permanente tear, a quase morte.
Nem por isso deixei de te amar,
Mas me fiz forte
Para não sucumbir ao canto de Pan,
A flauta a turvar-me a calma,
Deixando-me morna,
Rompendo-me o hímen, o sangue, os fios,
Jogando-me para a masmorra.
Reajo. Sou frágil,
Porém não sucumbirei,
Concubina do diabo,
Possuída por tua vara
Em riste, o jato quente a me cortar entranhas,
O grito ácido...
Gozar eternamente
Pudesse eu.
Tens-me, meu deus.
Sou tua, ateu
A me quebrar a pouca decência.
Cascata de lava, candeia,
Serena mente espreita
Tua cara em riste,
Tua mão em meu ventre
Morto no regaço do delírio
Desfeito o laço do cabaço que já não havia.
Adormeço doce no vapor, bafo da noite
Que recolhe os fios que escorrem por minhas coxas
Para fiar mais outras
Histórias entreabertas.
10/12/01
Com fios de sangue, minha vida,
Vi no cerne do novelo fluido seu rosto.
Eu vi.
Tremor tênue, como bico, passarinho,
Ali entendi meu destino amarrado a ti,
Irremediavelmente atrelado,
Como unha na carne,
Como minhas unhas, cornos
Desembainhando nos ossos grossos
O que havia por vir.
Fogo roçou costelas,
Tocou o grelo e pêlos:
Era tua mão de brasas.
À posse, impossível resistência.
Rasgaste-me a carne,
A consciência e a visão,
O gozo tomando tudo que é poro
Os fios de sangue plangendo lerdos.
Roubaste-me o centro,
Mas tornei a roubar-me de ti
Para assim amar-te em verdade.
Garganta, melaço na goela,
Queres a birra,
Preferes-me escrava
A amar-te plena.
Ao notar-me senhora dos fios de plasma ebúrneo,
A tessitura a te enredar suavemente,
Buscaste a brusca ruptura
Do meu permanente tear, a quase morte.
Nem por isso deixei de te amar,
Mas me fiz forte
Para não sucumbir ao canto de Pan,
A flauta a turvar-me a calma,
Deixando-me morna,
Rompendo-me o hímen, o sangue, os fios,
Jogando-me para a masmorra.
Reajo. Sou frágil,
Porém não sucumbirei,
Concubina do diabo,
Possuída por tua vara
Em riste, o jato quente a me cortar entranhas,
O grito ácido...
Gozar eternamente
Pudesse eu.
Tens-me, meu deus.
Sou tua, ateu
A me quebrar a pouca decência.
Cascata de lava, candeia,
Serena mente espreita
Tua cara em riste,
Tua mão em meu ventre
Morto no regaço do delírio
Desfeito o laço do cabaço que já não havia.
Adormeço doce no vapor, bafo da noite
Que recolhe os fios que escorrem por minhas coxas
Para fiar mais outras
Histórias entreabertas.
10/12/01
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008
QUATRO CURTAS

MINHA POESIA
Minha poesia só é poesia
Quando trabalho as palavras,
Mas há tanta coisa que quero apenas dizer.
Os estetas querem a dor das chagas,
O gume das facas,
A prosopopéia de idéias que se contradizem,
O marfim dos dentes,
Amores plangentes,
Os vapores quentes de paragens além.
No entanto, às vezes quero dizer apenas que dói,
Que o dia cinza me põe doente,
Que a vida passa lentamente,
Mas, quando percebo, já foi.
Quero olhar para dentro,
Para a frente,
De todos os ângulos,
E não florear o que vi.
Quero para de trincar os dentes
Cotidianamente
E ser apenas. Viver.
6/12/01
TAO
O exercício da vida
Consiste na demolição
Das certezas.
Nada é certo.
Nada é.
Nada.
O aniquilamento,
E aí vai tarde,
Há de nos fazer mancos
Por todo o sempre
E só.
Não pensar,
O esvaziamento seria a
Chaga refeita:
Ser são.
Já vai tarde...
Há o tempo em que as verdades
Dispensam explicação.
São.
Mas isso já faz muito tempo.
21/1/02
SIMPLES
Tanger de leve as franjas do infinito,
Desvanecer no não ser,
Não sofrer. Não ser feio nem bonito.
No fim das contas, para que viver?
O próprio descontentamento com a vida é bobagem,
É a humanidade.
Saber em verdade: não pensar.
Vou ser mestre no cume do morro,
Vento no rosto, corpo solto, mente plena,
Um artesão do meu próprio ser.
2002/07
MOTO-CONTÍNUO
Deslindar entre dedos lisos e duros
O osso que há de ser roído:
O dia-a-dia.
Do travo, engasgo, pêra podre,
O nobre asco,
Ainda persiste e obriga
A rotina.
Tentar fugir para quê?
Para o gosto do destino,
Achar ruim o ruim,
Tentar um outro caminho
Para enfim descobrir-se
Em areia movediça,
Tortura chinesa
Que torna horrível
O que já é sinistro?
Não.
Na negação do esforço tolo,
Moto-contínuo.
1/02
Minha poesia só é poesia
Quando trabalho as palavras,
Mas há tanta coisa que quero apenas dizer.
Os estetas querem a dor das chagas,
O gume das facas,
A prosopopéia de idéias que se contradizem,
O marfim dos dentes,
Amores plangentes,
Os vapores quentes de paragens além.
No entanto, às vezes quero dizer apenas que dói,
Que o dia cinza me põe doente,
Que a vida passa lentamente,
Mas, quando percebo, já foi.
Quero olhar para dentro,
Para a frente,
De todos os ângulos,
E não florear o que vi.
Quero para de trincar os dentes
Cotidianamente
E ser apenas. Viver.
6/12/01
TAO
O exercício da vida
Consiste na demolição
Das certezas.
Nada é certo.
Nada é.
Nada.
O aniquilamento,
E aí vai tarde,
Há de nos fazer mancos
Por todo o sempre
E só.
Não pensar,
O esvaziamento seria a
Chaga refeita:
Ser são.
Já vai tarde...
Há o tempo em que as verdades
Dispensam explicação.
São.
Mas isso já faz muito tempo.
21/1/02
SIMPLES
Tanger de leve as franjas do infinito,
Desvanecer no não ser,
Não sofrer. Não ser feio nem bonito.
No fim das contas, para que viver?
O próprio descontentamento com a vida é bobagem,
É a humanidade.
Saber em verdade: não pensar.
Vou ser mestre no cume do morro,
Vento no rosto, corpo solto, mente plena,
Um artesão do meu próprio ser.
2002/07
MOTO-CONTÍNUO
Deslindar entre dedos lisos e duros
O osso que há de ser roído:
O dia-a-dia.
Do travo, engasgo, pêra podre,
O nobre asco,
Ainda persiste e obriga
A rotina.
Tentar fugir para quê?
Para o gosto do destino,
Achar ruim o ruim,
Tentar um outro caminho
Para enfim descobrir-se
Em areia movediça,
Tortura chinesa
Que torna horrível
O que já é sinistro?
Não.
Na negação do esforço tolo,
Moto-contínuo.
1/02
sábado, 2 de fevereiro de 2008
TRÊS DE AMOR

NARCISO
Se você conseguisse se libertar de você
Aqui em mim teria espaço à vontade para se perder,
Mas não, rapaz acorrentado ao próprio jugo,
À própria sorte nefasta que só pode levá-lo ao solitário cinismo.
Sou universo nítido à frente de você,
Que teima em correr para um silencioso abismo interno,
Provocando meu riso de menina, deliciosamente espantada
com seu tortuoso labirinto pessoal.
“Não há dor aqui”, sussurro em seu ouvido,
Mas seu medo é tão ferino que te faz cada vez mais longe.
Vai doer, vá doer, fico sensibilizada por você,
Mas não pense que eu sofro com isso.
Quem sabe de você é você,
De mim sou eu,
Rodopiando na ciranda da minha liberta alegria.
Faz-se o dia. Há o dia de colher o que plantar
E o que será para você desse dia?
3/5/07
SANTO
Eu só acho que amo de verdade alguém,
Quando esse alguém me inspira uma poesia.
Eis então que um belo dia
(Ou alta madrugada, a bem dizer),
Me peguei escrevendo uma poesia para
Você.
Como explicar o que sinto,
O que você me causa aqui dentro
Sem te causar espanto
E sem espantar a mim mesma?
As coisas se passaram sem eu perceber,
As coisas aconteceram sem eu ter vontade de que fossem assim,
Sem que eu percebesse em mim este querer que me escapa ao controle.
Quando dei por mim, eu só via você na frente
E seu cheiro me aprisionou,
Fez de mim sua refém para sempre.
Parece descabido
Que isso tenha ocorrido comigo,
Mas fazer o que? Por mais que eu lute contra o que sinto,
Quando luto contra você
É comigo que brigo.
E me sinto esmorecer
Sem seu calor, meu querido, meu amigo.
Não sei se é bom ou justo te querer,
Mas de que adianta ir contra algo que simplesmente sinto,
Sem mais nem porque,
Só por você ser assim, tão menino,
Tão lindo...
Eu tento ver o futuro para deixar você sair de mim,
Para te tirar daqui do meu peito já tão ferido,
Mas não sei o que virá,
Não sei ler as agruras ou dádivas que me reserva o destino.
Ora, para que lutar?
Do que eu quero tanto fugir?
Da dor de amar sem receber o mesmo sentimento?
Quero você como e quanto você quiser se dar,
Quero você o quanto eu puder ter,
Quero você de qualquer jeito.
Você não é meu e (temo) nunca será,
Mas é tão grande o meu respeito e devoção por você
Que aceito qualquer condição para tê-lo em meu peito.
Claro, preciso de seu carinho e de sua compreensão,
Preciso que você seja bom comigo
Porque ainda não aprendi a amar alguém
Que não tem qualquer cosideração pelo que sinto.
Não acho que seja essa a situação, no entanto,
Então sigo o meu agridoce destino:
Te querer tanto quanto é possível querer alguém
E te ter aos poucos,
Aos trancos,
Pelos cantos.
Sussurro. Suspiro.
Uma lágrima teima em escorres enquanto finjo para mim que não ligo
Por você ter projetos de vida com alguém que você quer tão bem
E não ter nada comigo.
Capricho da vida, insidiosa,
Mas é tudo bobagem.
Não me importam os nomes nem a necessidade
De classificar, rotular, colocar em uma categoria.
Se o nome do que sinto é amor,
Pois que seja um amor ilimitado, infinito
Dentro de todas as privações e fronteiras.
Que seja pleno e lindo como, quando, quanto e onde puder ser.
É isso.
c. 5/06
CACHORRO
O que é o dia após dia quando se trata do sentir?
Você voando ao meu redor qual mosca de padaria
Só me pode fazer rir.
E não o riso da alegria do amor
Que um dia pensei a você reservar,
Mas da ironia do jogo senhor-escravo
Que noto você tentando aplicar-me, ó, criança tola,
Monte de carne unida pelo desejo que arde em brasa,
Mas que, em vez de você controlar,
O conduz como filhote de cão.
Para mim, há diversão ingênua em me fazer
Cordeiro às portas do abate,
Mas quanto você acha que controla a coisa toda
Enquanto à minha volta late?
Cuidado, pequenino,
Porque eu finjo para mim mesma coisas que sinto a todo instante,
E esses sentires me invadem
Num rompante, com alarde,
Mas eis que, segundo findo,
Lá se foi o meu encanto flutuar por outras partes.
Você fica então latindo sem saber como parar,
Enquanto me vê partir
Sem virar pra dizer tchau.
E já vai tarde o que há um átimo me parecia a morte
E nem todo o seu rosnar me assusta ou me preocupa.
Eu deixo-o à sua fome
Que nenhum bifinho magro há de aplacar.
Somente a minha carne,
Da qual a única fagulha que você tem
É a lembrança, corte.
Talho.
Saudade
De quem para quem?
Você bem sabe.
A garganta lanhada de tanto latir,
Tantas madrugadas sem dormir,
Definhando como cão sem dono,
Apenas por sua covarde fuga do sentir
Que não há de o deixar
Porque você insiste em não encarar
O tanto que sente por mim.
c. 5/06
Se você conseguisse se libertar de você
Aqui em mim teria espaço à vontade para se perder,
Mas não, rapaz acorrentado ao próprio jugo,
À própria sorte nefasta que só pode levá-lo ao solitário cinismo.
Sou universo nítido à frente de você,
Que teima em correr para um silencioso abismo interno,
Provocando meu riso de menina, deliciosamente espantada
com seu tortuoso labirinto pessoal.
“Não há dor aqui”, sussurro em seu ouvido,
Mas seu medo é tão ferino que te faz cada vez mais longe.
Vai doer, vá doer, fico sensibilizada por você,
Mas não pense que eu sofro com isso.
Quem sabe de você é você,
De mim sou eu,
Rodopiando na ciranda da minha liberta alegria.
Faz-se o dia. Há o dia de colher o que plantar
E o que será para você desse dia?
3/5/07
SANTO
Eu só acho que amo de verdade alguém,
Quando esse alguém me inspira uma poesia.
Eis então que um belo dia
(Ou alta madrugada, a bem dizer),
Me peguei escrevendo uma poesia para
Você.
Como explicar o que sinto,
O que você me causa aqui dentro
Sem te causar espanto
E sem espantar a mim mesma?
As coisas se passaram sem eu perceber,
As coisas aconteceram sem eu ter vontade de que fossem assim,
Sem que eu percebesse em mim este querer que me escapa ao controle.
Quando dei por mim, eu só via você na frente
E seu cheiro me aprisionou,
Fez de mim sua refém para sempre.
Parece descabido
Que isso tenha ocorrido comigo,
Mas fazer o que? Por mais que eu lute contra o que sinto,
Quando luto contra você
É comigo que brigo.
E me sinto esmorecer
Sem seu calor, meu querido, meu amigo.
Não sei se é bom ou justo te querer,
Mas de que adianta ir contra algo que simplesmente sinto,
Sem mais nem porque,
Só por você ser assim, tão menino,
Tão lindo...
Eu tento ver o futuro para deixar você sair de mim,
Para te tirar daqui do meu peito já tão ferido,
Mas não sei o que virá,
Não sei ler as agruras ou dádivas que me reserva o destino.
Ora, para que lutar?
Do que eu quero tanto fugir?
Da dor de amar sem receber o mesmo sentimento?
Quero você como e quanto você quiser se dar,
Quero você o quanto eu puder ter,
Quero você de qualquer jeito.
Você não é meu e (temo) nunca será,
Mas é tão grande o meu respeito e devoção por você
Que aceito qualquer condição para tê-lo em meu peito.
Claro, preciso de seu carinho e de sua compreensão,
Preciso que você seja bom comigo
Porque ainda não aprendi a amar alguém
Que não tem qualquer cosideração pelo que sinto.
Não acho que seja essa a situação, no entanto,
Então sigo o meu agridoce destino:
Te querer tanto quanto é possível querer alguém
E te ter aos poucos,
Aos trancos,
Pelos cantos.
Sussurro. Suspiro.
Uma lágrima teima em escorres enquanto finjo para mim que não ligo
Por você ter projetos de vida com alguém que você quer tão bem
E não ter nada comigo.
Capricho da vida, insidiosa,
Mas é tudo bobagem.
Não me importam os nomes nem a necessidade
De classificar, rotular, colocar em uma categoria.
Se o nome do que sinto é amor,
Pois que seja um amor ilimitado, infinito
Dentro de todas as privações e fronteiras.
Que seja pleno e lindo como, quando, quanto e onde puder ser.
É isso.
c. 5/06
CACHORRO
O que é o dia após dia quando se trata do sentir?
Você voando ao meu redor qual mosca de padaria
Só me pode fazer rir.
E não o riso da alegria do amor
Que um dia pensei a você reservar,
Mas da ironia do jogo senhor-escravo
Que noto você tentando aplicar-me, ó, criança tola,
Monte de carne unida pelo desejo que arde em brasa,
Mas que, em vez de você controlar,
O conduz como filhote de cão.
Para mim, há diversão ingênua em me fazer
Cordeiro às portas do abate,
Mas quanto você acha que controla a coisa toda
Enquanto à minha volta late?
Cuidado, pequenino,
Porque eu finjo para mim mesma coisas que sinto a todo instante,
E esses sentires me invadem
Num rompante, com alarde,
Mas eis que, segundo findo,
Lá se foi o meu encanto flutuar por outras partes.
Você fica então latindo sem saber como parar,
Enquanto me vê partir
Sem virar pra dizer tchau.
E já vai tarde o que há um átimo me parecia a morte
E nem todo o seu rosnar me assusta ou me preocupa.
Eu deixo-o à sua fome
Que nenhum bifinho magro há de aplacar.
Somente a minha carne,
Da qual a única fagulha que você tem
É a lembrança, corte.
Talho.
Saudade
De quem para quem?
Você bem sabe.
A garganta lanhada de tanto latir,
Tantas madrugadas sem dormir,
Definhando como cão sem dono,
Apenas por sua covarde fuga do sentir
Que não há de o deixar
Porque você insiste em não encarar
O tanto que sente por mim.
c. 5/06
quarta-feira, 30 de janeiro de 2008
PÂNTANO

Dediquei-te tanto de meu pensamento e peito apertado,
Um amor que não pediu nada para acontecer
Nem pediria nada para se manter vivo,
Só dependia do seu sorriso sincero para mim
E do cuidado de ser lembrado como momento pleno.
Eu não escolhi querer você,
Quando te vi perdi o rumo e o olhar baixou turvo,
Tímido, absorto em suas formas impressas no córtex do meu coração,
A memória de você, estarrecedor em mim, reverberando
Sua presença diante de minha cabeça baixa, sem coragem de encará-lo mais uma vez.
Te quis ali, fulminantemente. Não tinha escolha a não ser seguir o destino que me impelia a ser tua.
E um desejo sem mácula vindo de ti seria o doce alento de um amor distante e impossível,
Dessa forma tornado possível, porque atrelado à atenção que se dedica aos seres sagrados
Que prescindem da matéria e são absolutos e somente essência,
Éter e sentir,
Que amamos sem precisar tocar.
Era apenas não aviltar algo tão simples e preciso,
Era ter a coragem de deixar ser o que não poderia deixar de ser,
Deixá-lo pairar acima do juízo mesquinho dos homens.
Mas você, corpo que amei, não tinha em si o sopro da delicadeza,
Criado entre bichos e machos ufanos, você, o mais belo entre todos,
Tão mais belo que qualquer um deles,
Destoando e doendo sua beleza-doença
Pela qual tantas outras outrora se perderam.
Então chegara minha vez.
Deixou as serpentes insidiosas da inveja cravarem dentes venenosos em meu pescoço exposto
Ao seu beijo, ao seu toque,
Permitiu a passagem das bestas que sem sua conivência não teriam chegado até mim.
Tomou-me sua na entrega extrema para me jogar na rua do desprezo,
Olhando insidiosamente com seus belos olhos amarelos o meu desespero mudo, tateando cegada pelas chamas dos sorrisos cínicos
Em busca de um caminho, um caminho, qualquer caminho
Que me levasse para fora do labirinto
Em que eu mesma me coloquei.
Eu não te amei, eu não te amei, eu não te amei,
Mas como me doeu não poder te amar!
Eu busquei em você tudo o que poderia fazê-lo melhor e pedi
“Venha comigo para o prado fresco onde não há tempo de termos medo,
Onde não queremos o degredo e a prisão de quem amamos”.
Seu ouvido, conectado aos silvos agudos das serpentes do “eu sou tudo”,
Que trinavam o vaticínio da vaidade e do escárnio do qual você não percebeu poder desistir,
Fizeram pouco do que eu disse ali, moucos.
Sangrei o que pude e o que devia e me despedi da vida daquele lugar, tanto paraíso quanto martírio,
Despedaçando a ilusão de ter encontrado mais do que beleza, mas algo de genuíno.
Eu fui sua num gozo morto, na pressão de suas mãos brutas me pegando o quanto queriam
E não gozei e gozei o quanto quis e senti, eu fui sua.
Você morreu em mim pequenas mortes tantas vezes, de um som límpido e um pulsar sensível,
Eu te deixei lá longe para mandar pelo pombo a mensagem da execração que você merecia.
Você não teve coragem de dizer nada, você, covarde, virou a cara com medo,
Pois tudo o que queria era o meu amor supremo.
Você não suportou minha consciência tardia, entendendo que me perdera cedo e definitivamente.
Você escondeu seu urro para não deixar que vissem sua vergonha cretina
E eu pude sorrir livre de você, ainda dolorida no peito amassado e queimada por seu toque firme de hidra.
Fui ofendida, banida de volta à minha casa e me redescobri viva.
Você ficou parvo e pensou de novo em meu regaço, nós dois acesos,
Suando inteiros, você me quis novamente sabendo ser impossível,
Você está condenado a viver comigo sem a esperança de estar comigo,
Sozinho em sua arrogância de menino soterrada por uma dor que você sequer entende,
Mas que brilha e implode seu esterno cada vez que sopra o vento que carrega meu cheiro.
Um amor que não pediu nada para acontecer
Nem pediria nada para se manter vivo,
Só dependia do seu sorriso sincero para mim
E do cuidado de ser lembrado como momento pleno.
Eu não escolhi querer você,
Quando te vi perdi o rumo e o olhar baixou turvo,
Tímido, absorto em suas formas impressas no córtex do meu coração,
A memória de você, estarrecedor em mim, reverberando
Sua presença diante de minha cabeça baixa, sem coragem de encará-lo mais uma vez.
Te quis ali, fulminantemente. Não tinha escolha a não ser seguir o destino que me impelia a ser tua.
E um desejo sem mácula vindo de ti seria o doce alento de um amor distante e impossível,
Dessa forma tornado possível, porque atrelado à atenção que se dedica aos seres sagrados
Que prescindem da matéria e são absolutos e somente essência,
Éter e sentir,
Que amamos sem precisar tocar.
Era apenas não aviltar algo tão simples e preciso,
Era ter a coragem de deixar ser o que não poderia deixar de ser,
Deixá-lo pairar acima do juízo mesquinho dos homens.
Mas você, corpo que amei, não tinha em si o sopro da delicadeza,
Criado entre bichos e machos ufanos, você, o mais belo entre todos,
Tão mais belo que qualquer um deles,
Destoando e doendo sua beleza-doença
Pela qual tantas outras outrora se perderam.
Então chegara minha vez.
Deixou as serpentes insidiosas da inveja cravarem dentes venenosos em meu pescoço exposto
Ao seu beijo, ao seu toque,
Permitiu a passagem das bestas que sem sua conivência não teriam chegado até mim.
Tomou-me sua na entrega extrema para me jogar na rua do desprezo,
Olhando insidiosamente com seus belos olhos amarelos o meu desespero mudo, tateando cegada pelas chamas dos sorrisos cínicos
Em busca de um caminho, um caminho, qualquer caminho
Que me levasse para fora do labirinto
Em que eu mesma me coloquei.
Eu não te amei, eu não te amei, eu não te amei,
Mas como me doeu não poder te amar!
Eu busquei em você tudo o que poderia fazê-lo melhor e pedi
“Venha comigo para o prado fresco onde não há tempo de termos medo,
Onde não queremos o degredo e a prisão de quem amamos”.
Seu ouvido, conectado aos silvos agudos das serpentes do “eu sou tudo”,
Que trinavam o vaticínio da vaidade e do escárnio do qual você não percebeu poder desistir,
Fizeram pouco do que eu disse ali, moucos.
Sangrei o que pude e o que devia e me despedi da vida daquele lugar, tanto paraíso quanto martírio,
Despedaçando a ilusão de ter encontrado mais do que beleza, mas algo de genuíno.
Eu fui sua num gozo morto, na pressão de suas mãos brutas me pegando o quanto queriam
E não gozei e gozei o quanto quis e senti, eu fui sua.
Você morreu em mim pequenas mortes tantas vezes, de um som límpido e um pulsar sensível,
Eu te deixei lá longe para mandar pelo pombo a mensagem da execração que você merecia.
Você não teve coragem de dizer nada, você, covarde, virou a cara com medo,
Pois tudo o que queria era o meu amor supremo.
Você não suportou minha consciência tardia, entendendo que me perdera cedo e definitivamente.
Você escondeu seu urro para não deixar que vissem sua vergonha cretina
E eu pude sorrir livre de você, ainda dolorida no peito amassado e queimada por seu toque firme de hidra.
Fui ofendida, banida de volta à minha casa e me redescobri viva.
Você ficou parvo e pensou de novo em meu regaço, nós dois acesos,
Suando inteiros, você me quis novamente sabendo ser impossível,
Você está condenado a viver comigo sem a esperança de estar comigo,
Sozinho em sua arrogância de menino soterrada por uma dor que você sequer entende,
Mas que brilha e implode seu esterno cada vez que sopra o vento que carrega meu cheiro.
terça-feira, 29 de janeiro de 2008
DUAS POESIAS

ECLOSÃO
Estou em mim e nada sei.
Estou aqui, algo insurge,
Mas não sei o que.
Minha casa é demolição; a rotina, tépida e tranqüila,
Mas o monstro se avizinha.
Não o monstro que eu antes temia,
Não aquele com garras daninhas a me puxar pelo pé.
Este é novo e desconhecido e ruge entre dentes uma urgência que não posso esquecer.
Sou eu, aqui.
Sou eu a clamar por mim, eu em minha essência mais bruta,
Mais pura,
Gritando para eu me ser eu me ser eu ser ser ser.
Esquecer o que foi até então,
Sair das almofadas de minha prisão,
E meu mundo pessoal esfacela-se na busca por algo além
Que não está além em absoluto,
Mas aqui,
Soterrado, soturno,
Esperando sair.
Talvez meu riso seja menos,
Talvez uma placidez poderosa se apodere de mim.
Um monstro de vontade e instante a realizar
Maravilhas que vi em sonhos
E roçam e beliscam as pontas de meus dedos elétricos
Desde que nasci.
É a busca por ser quem nunca deixei de ser,
Mas nunca fui por inteiro.
É a fome de fevereiro, a febre do útero
Trincando a casca da concordância, do que está.
Não quero mais pensar.
Já pensei para tantas vidas...
Quero fazer sair de minhas tetas explosões e raios
E de minha buceta a luz que ofusca nações perplexas,
Para incorrer em erros palpáveis, verdades concretas,
Enfim,
O tudo que preciso realizar e que não sai daqui,
Mas desliza unhas feéricas pelas plantas de meus pés cansados de seguir a trilha já batida
[de passos e passos e passos cansados também, por sua vez.
Eu quero o marasmo que vem depois de todo ato,
Depois do espetáculo gutural que me provém de fogo.
Eu quero o prazer morto de prazer, e renascer da morte
Para me reinventar um pouco por dia, sempre nascendo outras,
Que eu não sei ser só um eu,
Sou tanto, tantas, tudo,
Sou mundo caótico de sonhos, abalroado por manadas tórridas
Insurgidas pelas planícies de luas incomensuráveis, infindas.
Perder a língua para ter labaredas entre dentes,
Falar por meio da garganta vulcânica que aqui há.
Eu hei de fecundar a Terra e da Terra gerar
O rebento atroz, sangüíneo,
Cuja voz há de estourar os tímpanos da razão para trazer à tona o riso e o gozo
Que antevejo por olhos entreabertos,
Mas evito, por medo de ser mais.
Eu quero inundar de sêmen os mananciais que alimentam as cidades,
Incrustada em mandalas ancestrais que me trazem a completude da consciência da
[manquidão
Que não se pode alterar.
Mancando, com a face animal, os olhos injetados,
Rubor de louca a desvirginar as costas,
Minhas costas e o mar,
Quero cavalgar no ritmo secular do vento,
Desistir do restritivo humano para ser centauro e gueixa e bicho e tudo o que me atravessar,
O corpo retalhado em brechas incandescentes
Porque não posso escapar de mim.
15/3/07
Estou em mim e nada sei.
Estou aqui, algo insurge,
Mas não sei o que.
Minha casa é demolição; a rotina, tépida e tranqüila,
Mas o monstro se avizinha.
Não o monstro que eu antes temia,
Não aquele com garras daninhas a me puxar pelo pé.
Este é novo e desconhecido e ruge entre dentes uma urgência que não posso esquecer.
Sou eu, aqui.
Sou eu a clamar por mim, eu em minha essência mais bruta,
Mais pura,
Gritando para eu me ser eu me ser eu ser ser ser.
Esquecer o que foi até então,
Sair das almofadas de minha prisão,
E meu mundo pessoal esfacela-se na busca por algo além
Que não está além em absoluto,
Mas aqui,
Soterrado, soturno,
Esperando sair.
Talvez meu riso seja menos,
Talvez uma placidez poderosa se apodere de mim.
Um monstro de vontade e instante a realizar
Maravilhas que vi em sonhos
E roçam e beliscam as pontas de meus dedos elétricos
Desde que nasci.
É a busca por ser quem nunca deixei de ser,
Mas nunca fui por inteiro.
É a fome de fevereiro, a febre do útero
Trincando a casca da concordância, do que está.
Não quero mais pensar.
Já pensei para tantas vidas...
Quero fazer sair de minhas tetas explosões e raios
E de minha buceta a luz que ofusca nações perplexas,
Para incorrer em erros palpáveis, verdades concretas,
Enfim,
O tudo que preciso realizar e que não sai daqui,
Mas desliza unhas feéricas pelas plantas de meus pés cansados de seguir a trilha já batida
[de passos e passos e passos cansados também, por sua vez.
Eu quero o marasmo que vem depois de todo ato,
Depois do espetáculo gutural que me provém de fogo.
Eu quero o prazer morto de prazer, e renascer da morte
Para me reinventar um pouco por dia, sempre nascendo outras,
Que eu não sei ser só um eu,
Sou tanto, tantas, tudo,
Sou mundo caótico de sonhos, abalroado por manadas tórridas
Insurgidas pelas planícies de luas incomensuráveis, infindas.
Perder a língua para ter labaredas entre dentes,
Falar por meio da garganta vulcânica que aqui há.
Eu hei de fecundar a Terra e da Terra gerar
O rebento atroz, sangüíneo,
Cuja voz há de estourar os tímpanos da razão para trazer à tona o riso e o gozo
Que antevejo por olhos entreabertos,
Mas evito, por medo de ser mais.
Eu quero inundar de sêmen os mananciais que alimentam as cidades,
Incrustada em mandalas ancestrais que me trazem a completude da consciência da
[manquidão
Que não se pode alterar.
Mancando, com a face animal, os olhos injetados,
Rubor de louca a desvirginar as costas,
Minhas costas e o mar,
Quero cavalgar no ritmo secular do vento,
Desistir do restritivo humano para ser centauro e gueixa e bicho e tudo o que me atravessar,
O corpo retalhado em brechas incandescentes
Porque não posso escapar de mim.
15/3/07
PRISMA
Hoje me pego no meio do caminho,
Mas estou mesmo no meio do caminho?
Com trinta anos, tudo se sabe
E nada se pode saber.
Meio do caminho, mas posso viver até os noventa
Ou morrer amanhã.
A vida já não dói como doía aos vinte,
Como doía na adolescência.
No entanto, o medo continua ardendo,
Talvez mais grave, mais forte.
Medo de sofrer violência em um mundo cada vez mais rude.
Medo de morrer cedo sem cumprir as tantas promessas que me fiz.
Medo de ser forte e espantar os homens, o companheiro possível, com minha força.
Mas estou aqui e não morri.
Morrerei. O que eu amo, quem eu amo, morrerá
E a morte é uma idéia definitiva e dura.
Há que se enfrentá-la, no entanto.
Não sou mais jovem, tampouco velha
E a consciência de minha pouca durabilidade me fere a carne.
Algo me dói e nada me dói, é a dívida de minha humanidade.
Jurei tantas coisas, tantas coisas traí, e sigo à minha própria sorte.
Quanto amei e a quantos fiz sofrer?
Algo aqui dentro arde.
Quero tanto e o tanto que hei de querer viver à mercê,
Porque desconheço o que virá e o meu desejo.
Quem sou eu? Algo grita em mim para que eu pare de pensar
E a vida segue ao largo e em mim,
Ao contrário de tudo o que sonhei.
Talvez seja um ajuste de contas que devo a mim mesma,
Prestes a ser adulta definitivamente
E, como nunca antes, criança perdida.
Quero mais poesia na vida, quero me divertir
E abraçar os corpos dos que amo,
Mas tudo é tão mundano que o amor e o abraço e mesmo o desejo são computados
A esmo,
Como o sexo do comercial de TV e do filme pornográfico.
Por que acreditar em estruturas que cerceiam o que de puro tenho?
Por que acreditar que menos é o meio
Quando quero explodir meus anseios e minha alegria para uma volta olímpica
Em torno da piscina do que rio?
Eu sou desatino e tento me controlar.
Eu sou vaticínio e tento amar a epopéia dos homens,
Amar a elegia do sempre o mesmo,
Mas eu sou tão descompenso, descompasso,
Eu sou tão desgarrada deste mundo de certezas que não criei e não almejo.
Eu sou percevejo carcomendo as beiradas da sanidade impregnada e imposta.
Eu quero tanto amar, eu amo tanto querer, eu sou ferida exposta,
Eu quero ver as gentes correndo desvairadas de amor e,
No momento seguinte,
Desacreditando das medidas aceitas e percebendo que tudo é muito mais que a seita
Do estabelecido.
É tudo lindo e lindo e lindo,
É tudo tão caótico e desprotegido
Que não devíamos querer controlar o que bate por fora do raciocínio.
Eu quero amar para além das estratégias
Em um convite para deixarmos de ser as mesmas presas
Do jogo de insinuar-desprezar
Que conduz as conquistas humanas.
Vamos agitar as flâmulas da loucura coletiva
Que é mais calma e sucinta
Que qualquer traquitana criada
Para nos fazer escravos
De uma reza braba
Que sempre diz:
Seja conforme, seja conforme, seja conforme.
Eu já não sei quem sou,
Mas tenho fome
De tudo o que se possa chamar amor,
Ou qualquer outro nome que estoure com brilhos e ouro
Acima das pretensões comezinhas
Da vida citadina e campesina.
Esqueçamos os dogmas, as doutrinas
E sejamos todos iguais
Em nossas idiossincrasias.
Sejamos a erva daninha e a fruta em flor
Do amor.
Sejamos sempre a vida sem temor.
Hoje me pego no meio do caminho,
Mas estou mesmo no meio do caminho?
Com trinta anos, tudo se sabe
E nada se pode saber.
Meio do caminho, mas posso viver até os noventa
Ou morrer amanhã.
A vida já não dói como doía aos vinte,
Como doía na adolescência.
No entanto, o medo continua ardendo,
Talvez mais grave, mais forte.
Medo de sofrer violência em um mundo cada vez mais rude.
Medo de morrer cedo sem cumprir as tantas promessas que me fiz.
Medo de ser forte e espantar os homens, o companheiro possível, com minha força.
Mas estou aqui e não morri.
Morrerei. O que eu amo, quem eu amo, morrerá
E a morte é uma idéia definitiva e dura.
Há que se enfrentá-la, no entanto.
Não sou mais jovem, tampouco velha
E a consciência de minha pouca durabilidade me fere a carne.
Algo me dói e nada me dói, é a dívida de minha humanidade.
Jurei tantas coisas, tantas coisas traí, e sigo à minha própria sorte.
Quanto amei e a quantos fiz sofrer?
Algo aqui dentro arde.
Quero tanto e o tanto que hei de querer viver à mercê,
Porque desconheço o que virá e o meu desejo.
Quem sou eu? Algo grita em mim para que eu pare de pensar
E a vida segue ao largo e em mim,
Ao contrário de tudo o que sonhei.
Talvez seja um ajuste de contas que devo a mim mesma,
Prestes a ser adulta definitivamente
E, como nunca antes, criança perdida.
Quero mais poesia na vida, quero me divertir
E abraçar os corpos dos que amo,
Mas tudo é tão mundano que o amor e o abraço e mesmo o desejo são computados
A esmo,
Como o sexo do comercial de TV e do filme pornográfico.
Por que acreditar em estruturas que cerceiam o que de puro tenho?
Por que acreditar que menos é o meio
Quando quero explodir meus anseios e minha alegria para uma volta olímpica
Em torno da piscina do que rio?
Eu sou desatino e tento me controlar.
Eu sou vaticínio e tento amar a epopéia dos homens,
Amar a elegia do sempre o mesmo,
Mas eu sou tão descompenso, descompasso,
Eu sou tão desgarrada deste mundo de certezas que não criei e não almejo.
Eu sou percevejo carcomendo as beiradas da sanidade impregnada e imposta.
Eu quero tanto amar, eu amo tanto querer, eu sou ferida exposta,
Eu quero ver as gentes correndo desvairadas de amor e,
No momento seguinte,
Desacreditando das medidas aceitas e percebendo que tudo é muito mais que a seita
Do estabelecido.
É tudo lindo e lindo e lindo,
É tudo tão caótico e desprotegido
Que não devíamos querer controlar o que bate por fora do raciocínio.
Eu quero amar para além das estratégias
Em um convite para deixarmos de ser as mesmas presas
Do jogo de insinuar-desprezar
Que conduz as conquistas humanas.
Vamos agitar as flâmulas da loucura coletiva
Que é mais calma e sucinta
Que qualquer traquitana criada
Para nos fazer escravos
De uma reza braba
Que sempre diz:
Seja conforme, seja conforme, seja conforme.
Eu já não sei quem sou,
Mas tenho fome
De tudo o que se possa chamar amor,
Ou qualquer outro nome que estoure com brilhos e ouro
Acima das pretensões comezinhas
Da vida citadina e campesina.
Esqueçamos os dogmas, as doutrinas
E sejamos todos iguais
Em nossas idiossincrasias.
Sejamos a erva daninha e a fruta em flor
Do amor.
Sejamos sempre a vida sem temor.
sexta-feira, 25 de janeiro de 2008
CALMARIA

A vida tem andado tranqüila
Como nunca foi,
Estou mais calma, menos doída,
O destino não parece crucial.
Há conforto, comida farta
E tantos berloques para me divertir,
Mas quanto mais me divirto
Menos acho graça,
Diversão banal, insossa.
Prefiro estar sozinha aqui em mim,
Quieta, sem a balbúrdia habitual
Da vida social,
Cujo ritmo próprio tão definido
Atropela meu sentidos e o que sinto.
Ainda há em mim muito da tola euforia
E da necessidade de preencher os dias a qualquer custo,
Mas tenho tido mais do meu silêncio.
Quero voltar meu pensamento para o que me alimenta
Porque o dia a dia, ainda que tranqüilo, não me faz plena,
É apenas uma parcela necessária para me possibilitar o esteio,
O meio de vida,
Enquanto a vida vai além.
Não estou deprimida, não me sinto desperdiçando meus dias,
Mas entendo que há muito mais para buscar
E que o lugar que hoje ocupo é só circunstancial,
Estou em um ponto específico de um caminho que tem muito que desenrolar.
Mesmo no meu tempo vago fazendo pouco
Para o que se espera de alguém em busca do novo,
Meu corpo e minha mente revolvem-se a todo momento,
Tateando as paredes do que ainda não conheço,
Mas busco
Para ser meu verdadeiro alimento.
Eu não sei o que serei, hoje já não almejo
Ser alguém de renome em algum segmento invejável
Somente espero que o incômodo que quase já não sinto,
Mas que me lembra o tempo todo de que preciso
Não de menos ou de mais,
E sim de algo diverso, outro,
Que essa centelha que será eterna em mim
Mesmo depois que eu tiver ido daqui
Escave um outro mundo a que fui ensinada a não dar ouvidos
E eu volte a ser bicho
Sem perder o juízo
Sendo sempre e mais comigo.
1/5/07
Como nunca foi,
Estou mais calma, menos doída,
O destino não parece crucial.
Há conforto, comida farta
E tantos berloques para me divertir,
Mas quanto mais me divirto
Menos acho graça,
Diversão banal, insossa.
Prefiro estar sozinha aqui em mim,
Quieta, sem a balbúrdia habitual
Da vida social,
Cujo ritmo próprio tão definido
Atropela meu sentidos e o que sinto.
Ainda há em mim muito da tola euforia
E da necessidade de preencher os dias a qualquer custo,
Mas tenho tido mais do meu silêncio.
Quero voltar meu pensamento para o que me alimenta
Porque o dia a dia, ainda que tranqüilo, não me faz plena,
É apenas uma parcela necessária para me possibilitar o esteio,
O meio de vida,
Enquanto a vida vai além.
Não estou deprimida, não me sinto desperdiçando meus dias,
Mas entendo que há muito mais para buscar
E que o lugar que hoje ocupo é só circunstancial,
Estou em um ponto específico de um caminho que tem muito que desenrolar.
Mesmo no meu tempo vago fazendo pouco
Para o que se espera de alguém em busca do novo,
Meu corpo e minha mente revolvem-se a todo momento,
Tateando as paredes do que ainda não conheço,
Mas busco
Para ser meu verdadeiro alimento.
Eu não sei o que serei, hoje já não almejo
Ser alguém de renome em algum segmento invejável
Somente espero que o incômodo que quase já não sinto,
Mas que me lembra o tempo todo de que preciso
Não de menos ou de mais,
E sim de algo diverso, outro,
Que essa centelha que será eterna em mim
Mesmo depois que eu tiver ido daqui
Escave um outro mundo a que fui ensinada a não dar ouvidos
E eu volte a ser bicho
Sem perder o juízo
Sendo sempre e mais comigo.
1/5/07
quinta-feira, 24 de janeiro de 2008
EU SOU O MENSAGEIRO DA INCERTEZA

A peste nos olhos divinos rasga corpos evadidos de si, corpos sombrios
E sem alma
Vagando por escadas de ópio, degraus em escalada íngreme para baixo,
Caminho que não passa, não vai, liga o nada a nada e adormece sentidos.
O morticínio está no centro da praça, saltando do peito da massa inerte de seres ocos
Pensando pouco.
A mortandade como de peixes dinamitados em água barrenta, ninguém a gritar socorro,
Olhos e ouvidos moucos, gente que renegou sua humanidade, atirada a esmo numa vala do caminho,
Para deglutir e cuspir desgraça atrás de desgraça atrás de desgraça.
Quem se importa...
Divididos em tribos distinguidas apenas por suas penas e costumes externos,
E adereços e brilhos na pele e escuros pensamentos, ignóbeis desejos e ralos vaticínios,
O futuro entregue a um Deus que se perdeu dos homens muito antes de serem nascidos,
Um Deus brutal e vingativo que deu as costas ao seu domínio ímpio, espezinho.
Não há a quem gritar, não há quem grite.
Entre tantos com vozes límpidas e poderosas, ninguém quer dissonar do restolho todo
Que repete mentalmente a ordem da vez: não seja e fique calado,
Apenas um boneco articulado e reconhecido pelo mundo dos mortos-vivos.
Que eu seja a peste nos olhos dos moribundos a deflagrar a ruptura da musculatura, carne inerte e inútil,
Que eu seja uma dor maior, outra dor, que faça o clarão da excruciante consciência.
No pacto com os céus ebúrneos eu vi passado e futuro explodirem para serem o que quisermos,
A dúvida a queimar os olhos porque não há caminho pronto para seguir, é preciso reinventar a História.
Se não há outro alguém para querer e assumir o cataclisma crucial de um querer outro,
Que eu seja o vivo-morto que renegou todos os tolos, banhado em luz e petróleo pegajoso e fogo,
Para massacrar aos poucos os habitantes mornos das prisões das convenções cretinas.
Que eu destile a minha sina venenosa nas boquiabertas bocas estarrecidas,
Fazendo um pacto com esse Deus mesquinho e rancoroso a quem recorrem todos os dias em seu próprio torvelinho fútil
Os pequenos de alma, os poucos de vida, os que querem apenas o arroto de satisfação tola com a pança cheia de presunção.
Que eu seja o último remanescente dos que ousaram querer e pagaram o preço incomensurável com a própria certeza de vida
Para viver realmente.
Eu despi a mortalha, músculos em brasa de sangue a gritar obscenidades entre as caras lavadas,
Eu vou ganir pelas salas morosas da não-realização.
Eu vou fender as garras afiadas o meu próprio destino incerto e desprecavido
Para morder frutos tidos por venenosos e estrebuchar o querosene que me mantém cativo ao deleite do frugal.
Eu vou viver de sal, esturricar por dentro e por fora, a pele crestada pela sede eterna do novo.
Eu não quero pouco e não faço por menos,
Dormindo no sereno para refrescar a secura de um corpo transbordando dentro
A alma inaplacável, iridescente, espargindo urros inclementes
Para fazer ouvir ouvidos surdos,
Para repercutir em todo o mundo morto que pode ser renascido
Se um querer fizer sentido e ressoar como hino.
Vou espargir por aí a fúria inesgotável do meu querer hediondo e sagrado
Para acordar a todos, que insistem em ser calados pelo marasmo,
Vou me entregar em espasmos a este trabalho hercúleo e insano,
Derreter os enganos para gerar a incerteza que é viver com todas as forças.
Hei de me fartar da taça da glória conquistada ou morrerei tentando.
16/1/08
E sem alma
Vagando por escadas de ópio, degraus em escalada íngreme para baixo,
Caminho que não passa, não vai, liga o nada a nada e adormece sentidos.
O morticínio está no centro da praça, saltando do peito da massa inerte de seres ocos
Pensando pouco.
A mortandade como de peixes dinamitados em água barrenta, ninguém a gritar socorro,
Olhos e ouvidos moucos, gente que renegou sua humanidade, atirada a esmo numa vala do caminho,
Para deglutir e cuspir desgraça atrás de desgraça atrás de desgraça.
Quem se importa...
Divididos em tribos distinguidas apenas por suas penas e costumes externos,
E adereços e brilhos na pele e escuros pensamentos, ignóbeis desejos e ralos vaticínios,
O futuro entregue a um Deus que se perdeu dos homens muito antes de serem nascidos,
Um Deus brutal e vingativo que deu as costas ao seu domínio ímpio, espezinho.
Não há a quem gritar, não há quem grite.
Entre tantos com vozes límpidas e poderosas, ninguém quer dissonar do restolho todo
Que repete mentalmente a ordem da vez: não seja e fique calado,
Apenas um boneco articulado e reconhecido pelo mundo dos mortos-vivos.
Que eu seja a peste nos olhos dos moribundos a deflagrar a ruptura da musculatura, carne inerte e inútil,
Que eu seja uma dor maior, outra dor, que faça o clarão da excruciante consciência.
No pacto com os céus ebúrneos eu vi passado e futuro explodirem para serem o que quisermos,
A dúvida a queimar os olhos porque não há caminho pronto para seguir, é preciso reinventar a História.
Se não há outro alguém para querer e assumir o cataclisma crucial de um querer outro,
Que eu seja o vivo-morto que renegou todos os tolos, banhado em luz e petróleo pegajoso e fogo,
Para massacrar aos poucos os habitantes mornos das prisões das convenções cretinas.
Que eu destile a minha sina venenosa nas boquiabertas bocas estarrecidas,
Fazendo um pacto com esse Deus mesquinho e rancoroso a quem recorrem todos os dias em seu próprio torvelinho fútil
Os pequenos de alma, os poucos de vida, os que querem apenas o arroto de satisfação tola com a pança cheia de presunção.
Que eu seja o último remanescente dos que ousaram querer e pagaram o preço incomensurável com a própria certeza de vida
Para viver realmente.
Eu despi a mortalha, músculos em brasa de sangue a gritar obscenidades entre as caras lavadas,
Eu vou ganir pelas salas morosas da não-realização.
Eu vou fender as garras afiadas o meu próprio destino incerto e desprecavido
Para morder frutos tidos por venenosos e estrebuchar o querosene que me mantém cativo ao deleite do frugal.
Eu vou viver de sal, esturricar por dentro e por fora, a pele crestada pela sede eterna do novo.
Eu não quero pouco e não faço por menos,
Dormindo no sereno para refrescar a secura de um corpo transbordando dentro
A alma inaplacável, iridescente, espargindo urros inclementes
Para fazer ouvir ouvidos surdos,
Para repercutir em todo o mundo morto que pode ser renascido
Se um querer fizer sentido e ressoar como hino.
Vou espargir por aí a fúria inesgotável do meu querer hediondo e sagrado
Para acordar a todos, que insistem em ser calados pelo marasmo,
Vou me entregar em espasmos a este trabalho hercúleo e insano,
Derreter os enganos para gerar a incerteza que é viver com todas as forças.
Hei de me fartar da taça da glória conquistada ou morrerei tentando.
16/1/08
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