sábado, 2 de fevereiro de 2008

TRÊS DE AMOR


NARCISO

Se você conseguisse se libertar de você
Aqui em mim teria espaço à vontade para se perder,
Mas não, rapaz acorrentado ao próprio jugo,
À própria sorte nefasta que só pode levá-lo ao solitário cinismo.
Sou universo nítido à frente de você,
Que teima em correr para um silencioso abismo interno,
Provocando meu riso de menina, deliciosamente espantada
com seu tortuoso labirinto pessoal.
“Não há dor aqui”, sussurro em seu ouvido,
Mas seu medo é tão ferino que te faz cada vez mais longe.
Vai doer, vá doer, fico sensibilizada por você,
Mas não pense que eu sofro com isso.
Quem sabe de você é você,
De mim sou eu,
Rodopiando na ciranda da minha liberta alegria.
Faz-se o dia. Há o dia de colher o que plantar
E o que será para você desse dia?

3/5/07


SANTO

Eu só acho que amo de verdade alguém,
Quando esse alguém me inspira uma poesia.
Eis então que um belo dia
(Ou alta madrugada, a bem dizer),
Me peguei escrevendo uma poesia para
Você.

Como explicar o que sinto,
O que você me causa aqui dentro
Sem te causar espanto
E sem espantar a mim mesma?

As coisas se passaram sem eu perceber,
As coisas aconteceram sem eu ter vontade de que fossem assim,
Sem que eu percebesse em mim este querer que me escapa ao controle.
Quando dei por mim, eu só via você na frente
E seu cheiro me aprisionou,
Fez de mim sua refém para sempre.

Parece descabido
Que isso tenha ocorrido comigo,
Mas fazer o que? Por mais que eu lute contra o que sinto,
Quando luto contra você
É comigo que brigo.

E me sinto esmorecer
Sem seu calor, meu querido, meu amigo.
Não sei se é bom ou justo te querer,
Mas de que adianta ir contra algo que simplesmente sinto,
Sem mais nem porque,
Só por você ser assim, tão menino,
Tão lindo...

Eu tento ver o futuro para deixar você sair de mim,
Para te tirar daqui do meu peito já tão ferido,
Mas não sei o que virá,
Não sei ler as agruras ou dádivas que me reserva o destino.
Ora, para que lutar?
Do que eu quero tanto fugir?
Da dor de amar sem receber o mesmo sentimento?
Quero você como e quanto você quiser se dar,
Quero você o quanto eu puder ter,
Quero você de qualquer jeito.

Você não é meu e (temo) nunca será,
Mas é tão grande o meu respeito e devoção por você
Que aceito qualquer condição para tê-lo em meu peito.

Claro, preciso de seu carinho e de sua compreensão,
Preciso que você seja bom comigo
Porque ainda não aprendi a amar alguém
Que não tem qualquer cosideração pelo que sinto.
Não acho que seja essa a situação, no entanto,
Então sigo o meu agridoce destino:
Te querer tanto quanto é possível querer alguém
E te ter aos poucos,
Aos trancos,
Pelos cantos.
Sussurro. Suspiro.
Uma lágrima teima em escorres enquanto finjo para mim que não ligo
Por você ter projetos de vida com alguém que você quer tão bem
E não ter nada comigo.
Capricho da vida, insidiosa,
Mas é tudo bobagem.
Não me importam os nomes nem a necessidade
De classificar, rotular, colocar em uma categoria.
Se o nome do que sinto é amor,
Pois que seja um amor ilimitado, infinito
Dentro de todas as privações e fronteiras.
Que seja pleno e lindo como, quando, quanto e onde puder ser.
É isso.

c. 5/06



CACHORRO

O que é o dia após dia quando se trata do sentir?
Você voando ao meu redor qual mosca de padaria
Só me pode fazer rir.
E não o riso da alegria do amor
Que um dia pensei a você reservar,
Mas da ironia do jogo senhor-escravo
Que noto você tentando aplicar-me, ó, criança tola,
Monte de carne unida pelo desejo que arde em brasa,
Mas que, em vez de você controlar,
O conduz como filhote de cão.

Para mim, há diversão ingênua em me fazer
Cordeiro às portas do abate,
Mas quanto você acha que controla a coisa toda
Enquanto à minha volta late?

Cuidado, pequenino,
Porque eu finjo para mim mesma coisas que sinto a todo instante,
E esses sentires me invadem
Num rompante, com alarde,
Mas eis que, segundo findo,
Lá se foi o meu encanto flutuar por outras partes.

Você fica então latindo sem saber como parar,
Enquanto me vê partir
Sem virar pra dizer tchau.

E já vai tarde o que há um átimo me parecia a morte
E nem todo o seu rosnar me assusta ou me preocupa.
Eu deixo-o à sua fome
Que nenhum bifinho magro há de aplacar.
Somente a minha carne,
Da qual a única fagulha que você tem
É a lembrança, corte.
Talho.
Saudade
De quem para quem?
Você bem sabe.

A garganta lanhada de tanto latir,
Tantas madrugadas sem dormir,
Definhando como cão sem dono,
Apenas por sua covarde fuga do sentir
Que não há de o deixar
Porque você insiste em não encarar
O tanto que sente por mim.

c. 5/06

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