segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

QUATRO CURTAS


MINHA POESIA

Minha poesia só é poesia
Quando trabalho as palavras,
Mas há tanta coisa que quero apenas dizer.
Os estetas querem a dor das chagas,
O gume das facas,
A prosopopéia de idéias que se contradizem,
O marfim dos dentes,
Amores plangentes,
Os vapores quentes de paragens além.
No entanto, às vezes quero dizer apenas que dói,
Que o dia cinza me põe doente,
Que a vida passa lentamente,
Mas, quando percebo, já foi.
Quero olhar para dentro,
Para a frente,
De todos os ângulos,
E não florear o que vi.
Quero para de trincar os dentes
Cotidianamente
E ser apenas. Viver.

6/12/01



TAO

O exercício da vida
Consiste na demolição
Das certezas.
Nada é certo.
Nada é.
Nada.
O aniquilamento,
E aí vai tarde,
Há de nos fazer mancos
Por todo o sempre
E só.
Não pensar,
O esvaziamento seria a
Chaga refeita:
Ser são.
Já vai tarde...
Há o tempo em que as verdades
Dispensam explicação.
São.
Mas isso já faz muito tempo.

21/1/02



SIMPLES
Tanger de leve as franjas do infinito,
Desvanecer no não ser,
Não sofrer. Não ser feio nem bonito.
No fim das contas, para que viver?
O próprio descontentamento com a vida é bobagem,
É a humanidade.
Saber em verdade: não pensar.
Vou ser mestre no cume do morro,
Vento no rosto, corpo solto, mente plena,
Um artesão do meu próprio ser.

2002/07


MOTO-CONTÍNUO

Deslindar entre dedos lisos e duros
O osso que há de ser roído:
O dia-a-dia.
Do travo, engasgo, pêra podre,
O nobre asco,
Ainda persiste e obriga
A rotina.
Tentar fugir para quê?
Para o gosto do destino,
Achar ruim o ruim,
Tentar um outro caminho
Para enfim descobrir-se
Em areia movediça,
Tortura chinesa
Que torna horrível
O que já é sinistro?
Não.
Na negação do esforço tolo,
Moto-contínuo.

1/02

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