
PRAÇA PÚBLICA
Perder-me talvez jamais pudesse,
Sei que não posso.
O talvez é só para nublar
A dor de ser
Irremediavelmente.
Entranha adentro, não há nada a fazer.
Seguir existindo, sentindo
A trombose rápida:
A carne desfalece,
Esfacela-se, apodrece.
A necrose do ser social
Que me tornei,
Mas que nunca seria outro,
Cresta-me a alma
Escusa por julgar-se suja,
Por jogar a culpa nos ombros,
Por se armar de tantos sonhos falsos
Sem na verdade tê-los almejado.
Caminha, desgovernada,
Vestida de mortalha
Que finjo abominar,
Mas busco.
E no lusco-fusco da vida sem controle
Controlar-me arremedo
E o medo me arde,
A faca na carne late
O que teimo em não ver:
A mentira da dor covarde
Em querer o não-querer.
Para parar, sentar
E levar a vida qual espectador teatral
Que vê no outro a farsa,
Que vê em si a mordaça,
Mas qual! Posta por si em si mesmo.
É o que mereço?
Posso ir além disso?
Claro.
Mas forjando o precipício
Abissínio,
Transformando o desatino
Em fato,
Como que mato meu destino.
Como o que mato, o meu filho.
Como o que mato em mim,
Autofágico assassino
Que ri
Gozando a própria desgraça
Forjada em praça pública.
E quem não tiver pecado
Que julgue,
Quem não se sente culpado
Que mude.
Quem não ficar parado,
Ataúde,
Há de ser alforriado,
Amém.
22/1/02
Perder-me talvez jamais pudesse,
Sei que não posso.
O talvez é só para nublar
A dor de ser
Irremediavelmente.
Entranha adentro, não há nada a fazer.
Seguir existindo, sentindo
A trombose rápida:
A carne desfalece,
Esfacela-se, apodrece.
A necrose do ser social
Que me tornei,
Mas que nunca seria outro,
Cresta-me a alma
Escusa por julgar-se suja,
Por jogar a culpa nos ombros,
Por se armar de tantos sonhos falsos
Sem na verdade tê-los almejado.
Caminha, desgovernada,
Vestida de mortalha
Que finjo abominar,
Mas busco.
E no lusco-fusco da vida sem controle
Controlar-me arremedo
E o medo me arde,
A faca na carne late
O que teimo em não ver:
A mentira da dor covarde
Em querer o não-querer.
Para parar, sentar
E levar a vida qual espectador teatral
Que vê no outro a farsa,
Que vê em si a mordaça,
Mas qual! Posta por si em si mesmo.
É o que mereço?
Posso ir além disso?
Claro.
Mas forjando o precipício
Abissínio,
Transformando o desatino
Em fato,
Como que mato meu destino.
Como o que mato, o meu filho.
Como o que mato em mim,
Autofágico assassino
Que ri
Gozando a própria desgraça
Forjada em praça pública.
E quem não tiver pecado
Que julgue,
Quem não se sente culpado
Que mude.
Quem não ficar parado,
Ataúde,
Há de ser alforriado,
Amém.
22/1/02
INEXPLICAR
Não quero desenhar o aleatório
Na busca resfolegante por meu eu.
Os ombros tórridos,
Tonitruante bálsamo do insano útero,
A gota túrgida
Do que jamais em palavras poderia capturar
É o que canto em sacra devoção.
E, a cada nota solta, uma outra escapa
Completamente ao tom,
Finalmente à razão.
Em cada bor-botão de flor,
Cascata de lava,
O que está em jogo
É o não dizer,
É sempre o não.
Quimeras, sofro não,
Quisera eu poder estar em tudo
E assim falar.
Mas em tudo estou,
Como um Deus caído de lá,
Que para lá caminha,
E do tudo em que estou,
No entanto,
Nada posso falar.
Assim seja, então,
Amém,
Boquirroto afônico
A gritar na freqüência canina,
Animal,
A qual os humanos não alcançam com os ouvidos.
Que meus grunhidos
Arranhem
Então
As entranhas.
Que as estranhas sílabas sonoras,
Ao tímpano e ao labirinto anatômico estranhas,
Rasguem carnes imateriais,
Estalem os ossos por dentro,
Que sejam o alimento do extrato obscuro
Por trás dos muros concretos das raízes do eu sei,
Eu sou,
Eu tenho,
Eu tenho que.
Cambalear sem dor, sem medo,
À beira do mais assustador abismo,
Sabendo que é disso que tenho tanto em mim.
Não posso ignorar o árduo chamado
Que me impele a ser solta, a ser louca
E a deixar de ser louca,
A ser lontra inexplicável
No lago do sem fim.
20/8/02
Não quero desenhar o aleatório
Na busca resfolegante por meu eu.
Os ombros tórridos,
Tonitruante bálsamo do insano útero,
A gota túrgida
Do que jamais em palavras poderia capturar
É o que canto em sacra devoção.
E, a cada nota solta, uma outra escapa
Completamente ao tom,
Finalmente à razão.
Em cada bor-botão de flor,
Cascata de lava,
O que está em jogo
É o não dizer,
É sempre o não.
Quimeras, sofro não,
Quisera eu poder estar em tudo
E assim falar.
Mas em tudo estou,
Como um Deus caído de lá,
Que para lá caminha,
E do tudo em que estou,
No entanto,
Nada posso falar.
Assim seja, então,
Amém,
Boquirroto afônico
A gritar na freqüência canina,
Animal,
A qual os humanos não alcançam com os ouvidos.
Que meus grunhidos
Arranhem
Então
As entranhas.
Que as estranhas sílabas sonoras,
Ao tímpano e ao labirinto anatômico estranhas,
Rasguem carnes imateriais,
Estalem os ossos por dentro,
Que sejam o alimento do extrato obscuro
Por trás dos muros concretos das raízes do eu sei,
Eu sou,
Eu tenho,
Eu tenho que.
Cambalear sem dor, sem medo,
À beira do mais assustador abismo,
Sabendo que é disso que tenho tanto em mim.
Não posso ignorar o árduo chamado
Que me impele a ser solta, a ser louca
E a deixar de ser louca,
A ser lontra inexplicável
No lago do sem fim.
20/8/02

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