quarta-feira, 2 de abril de 2008

OURO, AR

Eu posso senti-lo no raio de quilômetros
Sem olhar, sem perceber, sem tocar você.
Sua pele me vem dissolvida na inclemência do ar revolto, esporos do seu corpo...
Imaterialidade atravessando minha carne, e, antes de vê-lo, eu já o quis.
A escala de sua voz penetra-me como sexo e rompe as membranas
Auditivas.
Tenho medo por mim,
Mas não sou tão indefesa quanto quero.
Assim, tenho pressa de estar longe,
Porquanto procure seus vestígios a todo instante,
Em todo canto
De sereias imaginárias e faunos traiçoeiros.
Se cravasse minhas garras ferinas em seu dorso
Arrancaria não seu sangue, mas sua alma
Com a força de minha estocada abandonadamente viscosa,
Potencialmente carmesim e mesquinha,
No negrume de um desejo que o deseja aprisionado somente para mim,
Na profundidade de um temor que é tê-lo e não o ter.
Você é minha obra, meu mais perfeito trabalho.
Criei cada idéia de você, cada nuance e fagulha
Inspirada por um átimo de luxúria induzido por um relance de cabeça e sua voz.
Você é árido, silente e sibilino,
Sabendo o quanto seus instintos arranham meus instintos
E querendo isso,
Mesmo não querendo nada além disso.
Arranhar minha calma porque não pode ir além das imagens e soslaios,
Não pode me tocar
De sua posição intocável,
Da sua vida de homem social com vida social.
Meu faro é bom, eu sei de seus caminhos obscuros,
Mas vamos ficar deslizando nos muros de contenção de um desejo
Mútuo, que não se engana,
Porque somos humanos e seguimos a lógica ilógica
Que vai contra o que nos consome em chamas.

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