
Nasci bonita e perfeita dos corpos perfeitos de papai e mamãe,
Casa perfeita, vida perfeita vista pelo olhar social.
Cabeças e emoções tortas, no entanto, talham a mortalha, criança natimorta
Aprendendo a viver por si desde a manchada concepção,
Impelida para fora do ventre hostil sem pedir, sem querer,
Sem escolher nascer num mundo costurado para esconder suas imperfeições
Buscando a beleza no imaculado impossível,
Dos vivos fazendo títeres de bocas fendidas em risos vazios.
Eu, quase aborto, a filha desejada como peça de um jogo de efeito
Para encher o peito do orgulho tonto de cumprir
O papel roto escrito por todos os mortos em vida,
Talhado pela mão sinistra do contrato social,
Cuspido por bocas ensinadas a falar igual,
Sempre igual,
Sempre igual,
Sempre igual.
Por que se casaram, meus pais, se o medo urdiu o laço
Que os atou na sucessão de tempos de rançoso rancor,
Odiosos braços a rogar aos céus o consolo comprado a dinheiro
Em lojas da moda, em restaurantes caros,
Nos tapas que me jogaram e aos meus irmãos num desespero baço e roufenho
Enquanto tateávamos com nossas pequenas mãos inocentes
O caminho de cacos de vidro?
Enquanto cambaleávamos, mal saídos do engatinhar,
Pelos espinhos venenosos de uma trilha selvagem e não desbravada
Por vocês, que deviam ser nossos guias no início da jornada,
Mas tornaram-se os algozes?
Como posso eu odiá-los, porém?
Como posso pedir aos céus suas cabeças fincadas em postes
Para servir de exemplo aos outros?
Não posso culpá-los por serem inábeis, isentos da intenção de ferir,
E quanto mais esfrego os olhos ensopados do sal molhado que eu preferia não verter
Melhor enxergo que vocês nunca deixaram de ser filhos,
Assustados, acuados em um mundo mesquinho que é este em que também nasci,
Mas vocês continuam dando volta ao redor de seus umbigos.
E penso nas crianças que vocês foram
E lembro das histórias de meus avós
E vejo que não posso sentir nada além de dó em vez de rancor,
De amor em vez de ódio
E não há sequer o que perdoar
Porque vocês tentaram o seu melhor e isso não é pouco.
Eu sonho noites seguidas, vocês aninhados em meu colo,
Eu criança ainda, vocês adultos,
No entanto, sou muito maior que ambos
E vocês estão dormindo em meus braços,
Ninados, tranquilos.
Beijo suas testas, fosse eu a mãe,
Vocês já não sofrem.
Acordo, transtorno em gotas na nuca, na testa, nos olhos,
Um grito deglutido e meio torto:
Eu gostaria de redimi-los, de fazê-los esquecer o horror da infância e da perda da infância,
Mas não posso.
Não os culpo pelo que sofri
Por sua omissão ou excessos,
Pelas idéias falsas de criar bezerros em vez de gente,
Por não dar ouvidos às minhas dores insones e prantos amargos.
A dor, no entanto, continua aqui,
Lancinando minha voz quase histérica na tentativa de esconder as quelóides de anos
carcomidos,
Moldando meus passos em busca de um lugar novo para mim
Que não o mundo patético em que nasci e vivo.
Eu quero antes afirmar com todas as forças de todas as letras o quanto os amo
Por vocês serem fracos e falhos e, ainda assim, terem tido a coragem de tentar.
Graças a vocês, eu nasci
E sobre todas as dores não desisto da intensa experiência de estar aqui
E já singrei tantas ondas e me maravilho e me estupefaço sempre.
Eu os amo, nunca duvidem ou esqueçam.
Tentei ajudar meu irmão no começo da trilha,
Mas, criança terrivelmente impertinente,
Perdeu-se e ainda está lá,
Rodeado de espinhos e tão ferido que rezo a Deus todos os dias para ele encontrar
Um nicho de conforto
Como minha irmã,
Que formou sua célula de proteção e carinho.
Não se iluda a platéia desatenta
Ao olhar aflita para meu irmão coberto de cicatrizes,
Passarinho a mover asas trituradas sem poder voar.
Se ele abraçar a calma e o tempo, voltarão os movimentos,
Ele soube se manter miraculosamente vivo em meio a quinhentos tufões e não há de
sucumbir agora,
A calmaria se avizinha.
Eu tive de aprender a golpes de faca,
Eu tive de aprender no corte da navalha,
Fui boa até aqui, escondendo a dor no esgar de sorrisos traiçoeiros
Para mim, comigo,
Fingindo não ser a besta-fera em que me converti
Pela lancinante aflição a cada fração de segundo,
Nenúfar esfuziante e doce sulcado por garras de metal e súlfur.
Eu menti e disse sim um sem número de vezes,
Pedi para morrer quando tudo o que quis foi proferir ditames escabrosos,
Trazer à tona minha vontade malsã.
Eu quero que a humanidade se foda, morra calcinada,
Ovelha desgarrada e embebida em sangue pavorosamente putrefeito.
Atiro aos insidiosos solícitos que querem apenas o circo do sacrifício alheio
Um grito aquilino, ímpio, o tumor latente aqui dentro.
Desgarro minhas entranhas afora, estranha explosão, carnes virulentas a mostrar de modo
inegável e cruel
Tudo o que suporto, espartilhos de navalha atravessando a pele, os órgãos.
Eu sou a chaga viva esmerilhada, carne moída, remendada viva e por todos pisoteada,
Sou a caixa de Pandora, a quem todos, em pânico, viraram a cara,
Atirando aos olhos loucos de pavor
Minha prece gutural e encarquilhada, urro ensurdecedor
De fel, de cianureto, de soda cáustica.
Eu sou a carne pulsante de um bicho aniquilado, pútrido, horrendo,
Fétido enxame de insetos a inocular sues vermes incontáveis pelas tripas expostas,
Corpo virado ao avesso, de dentro para fora.
Sonolenta, desperto do pesadelo,
O horror e a peste foram embora.
Esgotada, novamente adormeço
E com a alvorada flutuo no ar, pétala rara
Flanando suave por ventos úmidos de orvalho bom,
A humanidade chora aliviada, redimida
Com minha cura.
Sou doce e serena e estou em mim,
Lágrima clara e pura.
30/1/08
Casa perfeita, vida perfeita vista pelo olhar social.
Cabeças e emoções tortas, no entanto, talham a mortalha, criança natimorta
Aprendendo a viver por si desde a manchada concepção,
Impelida para fora do ventre hostil sem pedir, sem querer,
Sem escolher nascer num mundo costurado para esconder suas imperfeições
Buscando a beleza no imaculado impossível,
Dos vivos fazendo títeres de bocas fendidas em risos vazios.
Eu, quase aborto, a filha desejada como peça de um jogo de efeito
Para encher o peito do orgulho tonto de cumprir
O papel roto escrito por todos os mortos em vida,
Talhado pela mão sinistra do contrato social,
Cuspido por bocas ensinadas a falar igual,
Sempre igual,
Sempre igual,
Sempre igual.
Por que se casaram, meus pais, se o medo urdiu o laço
Que os atou na sucessão de tempos de rançoso rancor,
Odiosos braços a rogar aos céus o consolo comprado a dinheiro
Em lojas da moda, em restaurantes caros,
Nos tapas que me jogaram e aos meus irmãos num desespero baço e roufenho
Enquanto tateávamos com nossas pequenas mãos inocentes
O caminho de cacos de vidro?
Enquanto cambaleávamos, mal saídos do engatinhar,
Pelos espinhos venenosos de uma trilha selvagem e não desbravada
Por vocês, que deviam ser nossos guias no início da jornada,
Mas tornaram-se os algozes?
Como posso eu odiá-los, porém?
Como posso pedir aos céus suas cabeças fincadas em postes
Para servir de exemplo aos outros?
Não posso culpá-los por serem inábeis, isentos da intenção de ferir,
E quanto mais esfrego os olhos ensopados do sal molhado que eu preferia não verter
Melhor enxergo que vocês nunca deixaram de ser filhos,
Assustados, acuados em um mundo mesquinho que é este em que também nasci,
Mas vocês continuam dando volta ao redor de seus umbigos.
E penso nas crianças que vocês foram
E lembro das histórias de meus avós
E vejo que não posso sentir nada além de dó em vez de rancor,
De amor em vez de ódio
E não há sequer o que perdoar
Porque vocês tentaram o seu melhor e isso não é pouco.
Eu sonho noites seguidas, vocês aninhados em meu colo,
Eu criança ainda, vocês adultos,
No entanto, sou muito maior que ambos
E vocês estão dormindo em meus braços,
Ninados, tranquilos.
Beijo suas testas, fosse eu a mãe,
Vocês já não sofrem.
Acordo, transtorno em gotas na nuca, na testa, nos olhos,
Um grito deglutido e meio torto:
Eu gostaria de redimi-los, de fazê-los esquecer o horror da infância e da perda da infância,
Mas não posso.
Não os culpo pelo que sofri
Por sua omissão ou excessos,
Pelas idéias falsas de criar bezerros em vez de gente,
Por não dar ouvidos às minhas dores insones e prantos amargos.
A dor, no entanto, continua aqui,
Lancinando minha voz quase histérica na tentativa de esconder as quelóides de anos
carcomidos,
Moldando meus passos em busca de um lugar novo para mim
Que não o mundo patético em que nasci e vivo.
Eu quero antes afirmar com todas as forças de todas as letras o quanto os amo
Por vocês serem fracos e falhos e, ainda assim, terem tido a coragem de tentar.
Graças a vocês, eu nasci
E sobre todas as dores não desisto da intensa experiência de estar aqui
E já singrei tantas ondas e me maravilho e me estupefaço sempre.
Eu os amo, nunca duvidem ou esqueçam.
Tentei ajudar meu irmão no começo da trilha,
Mas, criança terrivelmente impertinente,
Perdeu-se e ainda está lá,
Rodeado de espinhos e tão ferido que rezo a Deus todos os dias para ele encontrar
Um nicho de conforto
Como minha irmã,
Que formou sua célula de proteção e carinho.
Não se iluda a platéia desatenta
Ao olhar aflita para meu irmão coberto de cicatrizes,
Passarinho a mover asas trituradas sem poder voar.
Se ele abraçar a calma e o tempo, voltarão os movimentos,
Ele soube se manter miraculosamente vivo em meio a quinhentos tufões e não há de
sucumbir agora,
A calmaria se avizinha.
Eu tive de aprender a golpes de faca,
Eu tive de aprender no corte da navalha,
Fui boa até aqui, escondendo a dor no esgar de sorrisos traiçoeiros
Para mim, comigo,
Fingindo não ser a besta-fera em que me converti
Pela lancinante aflição a cada fração de segundo,
Nenúfar esfuziante e doce sulcado por garras de metal e súlfur.
Eu menti e disse sim um sem número de vezes,
Pedi para morrer quando tudo o que quis foi proferir ditames escabrosos,
Trazer à tona minha vontade malsã.
Eu quero que a humanidade se foda, morra calcinada,
Ovelha desgarrada e embebida em sangue pavorosamente putrefeito.
Atiro aos insidiosos solícitos que querem apenas o circo do sacrifício alheio
Um grito aquilino, ímpio, o tumor latente aqui dentro.
Desgarro minhas entranhas afora, estranha explosão, carnes virulentas a mostrar de modo
inegável e cruel
Tudo o que suporto, espartilhos de navalha atravessando a pele, os órgãos.
Eu sou a chaga viva esmerilhada, carne moída, remendada viva e por todos pisoteada,
Sou a caixa de Pandora, a quem todos, em pânico, viraram a cara,
Atirando aos olhos loucos de pavor
Minha prece gutural e encarquilhada, urro ensurdecedor
De fel, de cianureto, de soda cáustica.
Eu sou a carne pulsante de um bicho aniquilado, pútrido, horrendo,
Fétido enxame de insetos a inocular sues vermes incontáveis pelas tripas expostas,
Corpo virado ao avesso, de dentro para fora.
Sonolenta, desperto do pesadelo,
O horror e a peste foram embora.
Esgotada, novamente adormeço
E com a alvorada flutuo no ar, pétala rara
Flanando suave por ventos úmidos de orvalho bom,
A humanidade chora aliviada, redimida
Com minha cura.
Sou doce e serena e estou em mim,
Lágrima clara e pura.
30/1/08

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