sábado, 16 de fevereiro de 2008

MINHA REDENÇÃO


Nasci bonita e perfeita dos corpos perfeitos de papai e mamãe,
Casa perfeita, vida perfeita vista pelo olhar social.
Cabeças e emoções tortas, no entanto, talham a mortalha, criança natimorta
Aprendendo a viver por si desde a manchada concepção,
Impelida para fora do ventre hostil sem pedir, sem querer,
Sem escolher nascer num mundo costurado para esconder suas imperfeições
Buscando a beleza no imaculado impossível,
Dos vivos fazendo títeres de bocas fendidas em risos vazios.
Eu, quase aborto, a filha desejada como peça de um jogo de efeito
Para encher o peito do orgulho tonto de cumprir
O papel roto escrito por todos os mortos em vida,
Talhado pela mão sinistra do contrato social,
Cuspido por bocas ensinadas a falar igual,
Sempre igual,
Sempre igual,
Sempre igual.
Por que se casaram, meus pais, se o medo urdiu o laço
Que os atou na sucessão de tempos de rançoso rancor,
Odiosos braços a rogar aos céus o consolo comprado a dinheiro
Em lojas da moda, em restaurantes caros,
Nos tapas que me jogaram e aos meus irmãos num desespero baço e roufenho
Enquanto tateávamos com nossas pequenas mãos inocentes
O caminho de cacos de vidro?
Enquanto cambaleávamos, mal saídos do engatinhar,
Pelos espinhos venenosos de uma trilha selvagem e não desbravada
Por vocês, que deviam ser nossos guias no início da jornada,
Mas tornaram-se os algozes?

Como posso eu odiá-los, porém?
Como posso pedir aos céus suas cabeças fincadas em postes
Para servir de exemplo aos outros?
Não posso culpá-los por serem inábeis, isentos da intenção de ferir,
E quanto mais esfrego os olhos ensopados do sal molhado que eu preferia não verter
Melhor enxergo que vocês nunca deixaram de ser filhos,
Assustados, acuados em um mundo mesquinho que é este em que também nasci,
Mas vocês continuam dando volta ao redor de seus umbigos.
E penso nas crianças que vocês foram
E lembro das histórias de meus avós
E vejo que não posso sentir nada além de dó em vez de rancor,
De amor em vez de ódio
E não há sequer o que perdoar
Porque vocês tentaram o seu melhor e isso não é pouco.
Eu sonho noites seguidas, vocês aninhados em meu colo,
Eu criança ainda, vocês adultos,
No entanto, sou muito maior que ambos
E vocês estão dormindo em meus braços,
Ninados, tranquilos.
Beijo suas testas, fosse eu a mãe,
Vocês já não sofrem.

Acordo, transtorno em gotas na nuca, na testa, nos olhos,
Um grito deglutido e meio torto:
Eu gostaria de redimi-los, de fazê-los esquecer o horror da infância e da perda da infância,
Mas não posso.

Não os culpo pelo que sofri
Por sua omissão ou excessos,
Pelas idéias falsas de criar bezerros em vez de gente,
Por não dar ouvidos às minhas dores insones e prantos amargos.
A dor, no entanto, continua aqui,
Lancinando minha voz quase histérica na tentativa de esconder as quelóides de anos
carcomidos,
Moldando meus passos em busca de um lugar novo para mim
Que não o mundo patético em que nasci e vivo.

Eu quero antes afirmar com todas as forças de todas as letras o quanto os amo
Por vocês serem fracos e falhos e, ainda assim, terem tido a coragem de tentar.
Graças a vocês, eu nasci
E sobre todas as dores não desisto da intensa experiência de estar aqui
E já singrei tantas ondas e me maravilho e me estupefaço sempre.
Eu os amo, nunca duvidem ou esqueçam.

Tentei ajudar meu irmão no começo da trilha,
Mas, criança terrivelmente impertinente,
Perdeu-se e ainda está lá,
Rodeado de espinhos e tão ferido que rezo a Deus todos os dias para ele encontrar
Um nicho de conforto
Como minha irmã,
Que formou sua célula de proteção e carinho.
Não se iluda a platéia desatenta
Ao olhar aflita para meu irmão coberto de cicatrizes,
Passarinho a mover asas trituradas sem poder voar.
Se ele abraçar a calma e o tempo, voltarão os movimentos,
Ele soube se manter miraculosamente vivo em meio a quinhentos tufões e não há de
sucumbir agora,
A calmaria se avizinha.

Eu tive de aprender a golpes de faca,
Eu tive de aprender no corte da navalha,
Fui boa até aqui, escondendo a dor no esgar de sorrisos traiçoeiros
Para mim, comigo,
Fingindo não ser a besta-fera em que me converti
Pela lancinante aflição a cada fração de segundo,
Nenúfar esfuziante e doce sulcado por garras de metal e súlfur.
Eu menti e disse sim um sem número de vezes,
Pedi para morrer quando tudo o que quis foi proferir ditames escabrosos,
Trazer à tona minha vontade malsã.
Eu quero que a humanidade se foda, morra calcinada,
Ovelha desgarrada e embebida em sangue pavorosamente putrefeito.
Atiro aos insidiosos solícitos que querem apenas o circo do sacrifício alheio
Um grito aquilino, ímpio, o tumor latente aqui dentro.
Desgarro minhas entranhas afora, estranha explosão, carnes virulentas a mostrar de modo
inegável e cruel
Tudo o que suporto, espartilhos de navalha atravessando a pele, os órgãos.
Eu sou a chaga viva esmerilhada, carne moída, remendada viva e por todos pisoteada,
Sou a caixa de Pandora, a quem todos, em pânico, viraram a cara,
Atirando aos olhos loucos de pavor
Minha prece gutural e encarquilhada, urro ensurdecedor
De fel, de cianureto, de soda cáustica.
Eu sou a carne pulsante de um bicho aniquilado, pútrido, horrendo,
Fétido enxame de insetos a inocular sues vermes incontáveis pelas tripas expostas,
Corpo virado ao avesso, de dentro para fora.

Sonolenta, desperto do pesadelo,
O horror e a peste foram embora.
Esgotada, novamente adormeço
E com a alvorada flutuo no ar, pétala rara
Flanando suave por ventos úmidos de orvalho bom,
A humanidade chora aliviada, redimida
Com minha cura.
Sou doce e serena e estou em mim,
Lágrima clara e pura.

30/1/08

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

DUAS ELEGIAS


PRAÇA PÚBLICA

Perder-me talvez jamais pudesse,
Sei que não posso.
O talvez é só para nublar
A dor de ser
Irremediavelmente.
Entranha adentro, não há nada a fazer.
Seguir existindo, sentindo
A trombose rápida:
A carne desfalece,
Esfacela-se, apodrece.
A necrose do ser social
Que me tornei,
Mas que nunca seria outro,
Cresta-me a alma
Escusa por julgar-se suja,
Por jogar a culpa nos ombros,
Por se armar de tantos sonhos falsos
Sem na verdade tê-los almejado.
Caminha, desgovernada,
Vestida de mortalha
Que finjo abominar,
Mas busco.
E no lusco-fusco da vida sem controle
Controlar-me arremedo
E o medo me arde,
A faca na carne late
O que teimo em não ver:
A mentira da dor covarde
Em querer o não-querer.
Para parar, sentar
E levar a vida qual espectador teatral
Que vê no outro a farsa,
Que vê em si a mordaça,
Mas qual! Posta por si em si mesmo.
É o que mereço?
Posso ir além disso?
Claro.
Mas forjando o precipício
Abissínio,
Transformando o desatino
Em fato,
Como que mato meu destino.
Como o que mato, o meu filho.
Como o que mato em mim,
Autofágico assassino
Que ri
Gozando a própria desgraça
Forjada em praça pública.
E quem não tiver pecado
Que julgue,
Quem não se sente culpado
Que mude.
Quem não ficar parado,
Ataúde,
Há de ser alforriado,
Amém.

22/1/02


INEXPLICAR

Não quero desenhar o aleatório
Na busca resfolegante por meu eu.
Os ombros tórridos,
Tonitruante bálsamo do insano útero,
A gota túrgida
Do que jamais em palavras poderia capturar
É o que canto em sacra devoção.
E, a cada nota solta, uma outra escapa
Completamente ao tom,
Finalmente à razão.
Em cada bor-botão de flor,
Cascata de lava,
O que está em jogo
É o não dizer,
É sempre o não.
Quimeras, sofro não,
Quisera eu poder estar em tudo
E assim falar.
Mas em tudo estou,
Como um Deus caído de lá,
Que para lá caminha,
E do tudo em que estou,
No entanto,
Nada posso falar.
Assim seja, então,
Amém,
Boquirroto afônico
A gritar na freqüência canina,
Animal,
A qual os humanos não alcançam com os ouvidos.
Que meus grunhidos
Arranhem
Então
As entranhas.
Que as estranhas sílabas sonoras,
Ao tímpano e ao labirinto anatômico estranhas,
Rasguem carnes imateriais,
Estalem os ossos por dentro,
Que sejam o alimento do extrato obscuro
Por trás dos muros concretos das raízes do eu sei,
Eu sou,
Eu tenho,
Eu tenho que.
Cambalear sem dor, sem medo,
À beira do mais assustador abismo,
Sabendo que é disso que tenho tanto em mim.
Não posso ignorar o árduo chamado
Que me impele a ser solta, a ser louca
E a deixar de ser louca,
A ser lontra inexplicável
No lago do sem fim.

20/8/02

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

O SAL DA LÁGRIMA


Remoer cada gosto,
O bolo no estômago,
O momento pronto em que me feriste,
Não é de bom alvitre,
Não salva a minha carne
Essa recusa mole
Que nada mais é que o certo.
Saber, soube todo o tempo.
Palavra empenhada,
Ungüento na carne cortada,
Como se pudesse ser o que mentiste.
Como pode ser tão tristemente menino,
Olhando o próprio umbigo
Por toda a vida,
Enquanto me perdeste em fraturas no abismo
Da tua desconsideração?
Rolar, ardido, pelos sulcos esculpidos em meu rosto,
O sal da lágrima
Escorrida a contragosto.
Queria ignorar a batida, a porrada,
Ser amada como eu quis,
Mas quanto quero mesmo ser amada?
Olho para ti
Pelo espelho do que me vejo.
Não sei o que penso,
Não sei o que dentro,
Alfabeto místico perdido na fome de te ter
Sem saber como é isso.

9/12/01

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

EPOPÉIA


Bordando entre dedos de ossos duros, luzidios,
Com fios de sangue, minha vida,
Vi no cerne do novelo fluido seu rosto.
Eu vi.
Tremor tênue, como bico, passarinho,
Ali entendi meu destino amarrado a ti,
Irremediavelmente atrelado,
Como unha na carne,
Como minhas unhas, cornos
Desembainhando nos ossos grossos
O que havia por vir.
Fogo roçou costelas,
Tocou o grelo e pêlos:
Era tua mão de brasas.
À posse, impossível resistência.
Rasgaste-me a carne,
A consciência e a visão,
O gozo tomando tudo que é poro
Os fios de sangue plangendo lerdos.
Roubaste-me o centro,
Mas tornei a roubar-me de ti
Para assim amar-te em verdade.
Garganta, melaço na goela,
Queres a birra,
Preferes-me escrava
A amar-te plena.
Ao notar-me senhora dos fios de plasma ebúrneo,
A tessitura a te enredar suavemente,
Buscaste a brusca ruptura
Do meu permanente tear, a quase morte.
Nem por isso deixei de te amar,
Mas me fiz forte
Para não sucumbir ao canto de Pan,
A flauta a turvar-me a calma,
Deixando-me morna,
Rompendo-me o hímen, o sangue, os fios,
Jogando-me para a masmorra.
Reajo. Sou frágil,
Porém não sucumbirei,
Concubina do diabo,
Possuída por tua vara
Em riste, o jato quente a me cortar entranhas,
O grito ácido...
Gozar eternamente
Pudesse eu.
Tens-me, meu deus.
Sou tua, ateu
A me quebrar a pouca decência.
Cascata de lava, candeia,
Serena mente espreita
Tua cara em riste,
Tua mão em meu ventre
Morto no regaço do delírio
Desfeito o laço do cabaço que já não havia.
Adormeço doce no vapor, bafo da noite
Que recolhe os fios que escorrem por minhas coxas
Para fiar mais outras
Histórias entreabertas.

10/12/01

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

QUATRO CURTAS


MINHA POESIA

Minha poesia só é poesia
Quando trabalho as palavras,
Mas há tanta coisa que quero apenas dizer.
Os estetas querem a dor das chagas,
O gume das facas,
A prosopopéia de idéias que se contradizem,
O marfim dos dentes,
Amores plangentes,
Os vapores quentes de paragens além.
No entanto, às vezes quero dizer apenas que dói,
Que o dia cinza me põe doente,
Que a vida passa lentamente,
Mas, quando percebo, já foi.
Quero olhar para dentro,
Para a frente,
De todos os ângulos,
E não florear o que vi.
Quero para de trincar os dentes
Cotidianamente
E ser apenas. Viver.

6/12/01



TAO

O exercício da vida
Consiste na demolição
Das certezas.
Nada é certo.
Nada é.
Nada.
O aniquilamento,
E aí vai tarde,
Há de nos fazer mancos
Por todo o sempre
E só.
Não pensar,
O esvaziamento seria a
Chaga refeita:
Ser são.
Já vai tarde...
Há o tempo em que as verdades
Dispensam explicação.
São.
Mas isso já faz muito tempo.

21/1/02



SIMPLES
Tanger de leve as franjas do infinito,
Desvanecer no não ser,
Não sofrer. Não ser feio nem bonito.
No fim das contas, para que viver?
O próprio descontentamento com a vida é bobagem,
É a humanidade.
Saber em verdade: não pensar.
Vou ser mestre no cume do morro,
Vento no rosto, corpo solto, mente plena,
Um artesão do meu próprio ser.

2002/07


MOTO-CONTÍNUO

Deslindar entre dedos lisos e duros
O osso que há de ser roído:
O dia-a-dia.
Do travo, engasgo, pêra podre,
O nobre asco,
Ainda persiste e obriga
A rotina.
Tentar fugir para quê?
Para o gosto do destino,
Achar ruim o ruim,
Tentar um outro caminho
Para enfim descobrir-se
Em areia movediça,
Tortura chinesa
Que torna horrível
O que já é sinistro?
Não.
Na negação do esforço tolo,
Moto-contínuo.

1/02

sábado, 2 de fevereiro de 2008

TRÊS DE AMOR


NARCISO

Se você conseguisse se libertar de você
Aqui em mim teria espaço à vontade para se perder,
Mas não, rapaz acorrentado ao próprio jugo,
À própria sorte nefasta que só pode levá-lo ao solitário cinismo.
Sou universo nítido à frente de você,
Que teima em correr para um silencioso abismo interno,
Provocando meu riso de menina, deliciosamente espantada
com seu tortuoso labirinto pessoal.
“Não há dor aqui”, sussurro em seu ouvido,
Mas seu medo é tão ferino que te faz cada vez mais longe.
Vai doer, vá doer, fico sensibilizada por você,
Mas não pense que eu sofro com isso.
Quem sabe de você é você,
De mim sou eu,
Rodopiando na ciranda da minha liberta alegria.
Faz-se o dia. Há o dia de colher o que plantar
E o que será para você desse dia?

3/5/07


SANTO

Eu só acho que amo de verdade alguém,
Quando esse alguém me inspira uma poesia.
Eis então que um belo dia
(Ou alta madrugada, a bem dizer),
Me peguei escrevendo uma poesia para
Você.

Como explicar o que sinto,
O que você me causa aqui dentro
Sem te causar espanto
E sem espantar a mim mesma?

As coisas se passaram sem eu perceber,
As coisas aconteceram sem eu ter vontade de que fossem assim,
Sem que eu percebesse em mim este querer que me escapa ao controle.
Quando dei por mim, eu só via você na frente
E seu cheiro me aprisionou,
Fez de mim sua refém para sempre.

Parece descabido
Que isso tenha ocorrido comigo,
Mas fazer o que? Por mais que eu lute contra o que sinto,
Quando luto contra você
É comigo que brigo.

E me sinto esmorecer
Sem seu calor, meu querido, meu amigo.
Não sei se é bom ou justo te querer,
Mas de que adianta ir contra algo que simplesmente sinto,
Sem mais nem porque,
Só por você ser assim, tão menino,
Tão lindo...

Eu tento ver o futuro para deixar você sair de mim,
Para te tirar daqui do meu peito já tão ferido,
Mas não sei o que virá,
Não sei ler as agruras ou dádivas que me reserva o destino.
Ora, para que lutar?
Do que eu quero tanto fugir?
Da dor de amar sem receber o mesmo sentimento?
Quero você como e quanto você quiser se dar,
Quero você o quanto eu puder ter,
Quero você de qualquer jeito.

Você não é meu e (temo) nunca será,
Mas é tão grande o meu respeito e devoção por você
Que aceito qualquer condição para tê-lo em meu peito.

Claro, preciso de seu carinho e de sua compreensão,
Preciso que você seja bom comigo
Porque ainda não aprendi a amar alguém
Que não tem qualquer cosideração pelo que sinto.
Não acho que seja essa a situação, no entanto,
Então sigo o meu agridoce destino:
Te querer tanto quanto é possível querer alguém
E te ter aos poucos,
Aos trancos,
Pelos cantos.
Sussurro. Suspiro.
Uma lágrima teima em escorres enquanto finjo para mim que não ligo
Por você ter projetos de vida com alguém que você quer tão bem
E não ter nada comigo.
Capricho da vida, insidiosa,
Mas é tudo bobagem.
Não me importam os nomes nem a necessidade
De classificar, rotular, colocar em uma categoria.
Se o nome do que sinto é amor,
Pois que seja um amor ilimitado, infinito
Dentro de todas as privações e fronteiras.
Que seja pleno e lindo como, quando, quanto e onde puder ser.
É isso.

c. 5/06



CACHORRO

O que é o dia após dia quando se trata do sentir?
Você voando ao meu redor qual mosca de padaria
Só me pode fazer rir.
E não o riso da alegria do amor
Que um dia pensei a você reservar,
Mas da ironia do jogo senhor-escravo
Que noto você tentando aplicar-me, ó, criança tola,
Monte de carne unida pelo desejo que arde em brasa,
Mas que, em vez de você controlar,
O conduz como filhote de cão.

Para mim, há diversão ingênua em me fazer
Cordeiro às portas do abate,
Mas quanto você acha que controla a coisa toda
Enquanto à minha volta late?

Cuidado, pequenino,
Porque eu finjo para mim mesma coisas que sinto a todo instante,
E esses sentires me invadem
Num rompante, com alarde,
Mas eis que, segundo findo,
Lá se foi o meu encanto flutuar por outras partes.

Você fica então latindo sem saber como parar,
Enquanto me vê partir
Sem virar pra dizer tchau.

E já vai tarde o que há um átimo me parecia a morte
E nem todo o seu rosnar me assusta ou me preocupa.
Eu deixo-o à sua fome
Que nenhum bifinho magro há de aplacar.
Somente a minha carne,
Da qual a única fagulha que você tem
É a lembrança, corte.
Talho.
Saudade
De quem para quem?
Você bem sabe.

A garganta lanhada de tanto latir,
Tantas madrugadas sem dormir,
Definhando como cão sem dono,
Apenas por sua covarde fuga do sentir
Que não há de o deixar
Porque você insiste em não encarar
O tanto que sente por mim.

c. 5/06