terça-feira, 29 de janeiro de 2008

DUAS POESIAS


ECLOSÃO

Estou em mim e nada sei.
Estou aqui, algo insurge,
Mas não sei o que.
Minha casa é demolição; a rotina, tépida e tranqüila,
Mas o monstro se avizinha.
Não o monstro que eu antes temia,
Não aquele com garras daninhas a me puxar pelo pé.
Este é novo e desconhecido e ruge entre dentes uma urgência que não posso esquecer.
Sou eu, aqui.
Sou eu a clamar por mim, eu em minha essência mais bruta,
Mais pura,
Gritando para eu me ser eu me ser eu ser ser ser.
Esquecer o que foi até então,
Sair das almofadas de minha prisão,
E meu mundo pessoal esfacela-se na busca por algo além
Que não está além em absoluto,
Mas aqui,
Soterrado, soturno,
Esperando sair.
Talvez meu riso seja menos,
Talvez uma placidez poderosa se apodere de mim.
Um monstro de vontade e instante a realizar
Maravilhas que vi em sonhos
E roçam e beliscam as pontas de meus dedos elétricos
Desde que nasci.
É a busca por ser quem nunca deixei de ser,
Mas nunca fui por inteiro.
É a fome de fevereiro, a febre do útero
Trincando a casca da concordância, do que está.
Não quero mais pensar.
Já pensei para tantas vidas...
Quero fazer sair de minhas tetas explosões e raios
E de minha buceta a luz que ofusca nações perplexas,
Para incorrer em erros palpáveis, verdades concretas,
Enfim,
O tudo que preciso realizar e que não sai daqui,
Mas desliza unhas feéricas pelas plantas de meus pés cansados de seguir a trilha já batida
[de passos e passos e passos cansados também, por sua vez.
Eu quero o marasmo que vem depois de todo ato,
Depois do espetáculo gutural que me provém de fogo.
Eu quero o prazer morto de prazer, e renascer da morte
Para me reinventar um pouco por dia, sempre nascendo outras,
Que eu não sei ser só um eu,
Sou tanto, tantas, tudo,
Sou mundo caótico de sonhos, abalroado por manadas tórridas
Insurgidas pelas planícies de luas incomensuráveis, infindas.
Perder a língua para ter labaredas entre dentes,
Falar por meio da garganta vulcânica que aqui há.
Eu hei de fecundar a Terra e da Terra gerar
O rebento atroz, sangüíneo,
Cuja voz há de estourar os tímpanos da razão para trazer à tona o riso e o gozo
Que antevejo por olhos entreabertos,
Mas evito, por medo de ser mais.
Eu quero inundar de sêmen os mananciais que alimentam as cidades,
Incrustada em mandalas ancestrais que me trazem a completude da consciência da
[manquidão
Que não se pode alterar.
Mancando, com a face animal, os olhos injetados,
Rubor de louca a desvirginar as costas,
Minhas costas e o mar,
Quero cavalgar no ritmo secular do vento,
Desistir do restritivo humano para ser centauro e gueixa e bicho e tudo o que me atravessar,
O corpo retalhado em brechas incandescentes
Porque não posso escapar de mim.

15/3/07

PRISMA

Hoje me pego no meio do caminho,
Mas estou mesmo no meio do caminho?
Com trinta anos, tudo se sabe
E nada se pode saber.
Meio do caminho, mas posso viver até os noventa
Ou morrer amanhã.
A vida já não dói como doía aos vinte,
Como doía na adolescência.
No entanto, o medo continua ardendo,
Talvez mais grave, mais forte.
Medo de sofrer violência em um mundo cada vez mais rude.
Medo de morrer cedo sem cumprir as tantas promessas que me fiz.
Medo de ser forte e espantar os homens, o companheiro possível, com minha força.
Mas estou aqui e não morri.
Morrerei. O que eu amo, quem eu amo, morrerá
E a morte é uma idéia definitiva e dura.
Há que se enfrentá-la, no entanto.
Não sou mais jovem, tampouco velha
E a consciência de minha pouca durabilidade me fere a carne.
Algo me dói e nada me dói, é a dívida de minha humanidade.
Jurei tantas coisas, tantas coisas traí, e sigo à minha própria sorte.
Quanto amei e a quantos fiz sofrer?
Algo aqui dentro arde.
Quero tanto e o tanto que hei de querer viver à mercê,
Porque desconheço o que virá e o meu desejo.
Quem sou eu? Algo grita em mim para que eu pare de pensar
E a vida segue ao largo e em mim,
Ao contrário de tudo o que sonhei.
Talvez seja um ajuste de contas que devo a mim mesma,
Prestes a ser adulta definitivamente
E, como nunca antes, criança perdida.
Quero mais poesia na vida, quero me divertir
E abraçar os corpos dos que amo,
Mas tudo é tão mundano que o amor e o abraço e mesmo o desejo são computados
A esmo,
Como o sexo do comercial de TV e do filme pornográfico.
Por que acreditar em estruturas que cerceiam o que de puro tenho?
Por que acreditar que menos é o meio
Quando quero explodir meus anseios e minha alegria para uma volta olímpica
Em torno da piscina do que rio?
Eu sou desatino e tento me controlar.
Eu sou vaticínio e tento amar a epopéia dos homens,
Amar a elegia do sempre o mesmo,
Mas eu sou tão descompenso, descompasso,
Eu sou tão desgarrada deste mundo de certezas que não criei e não almejo.
Eu sou percevejo carcomendo as beiradas da sanidade impregnada e imposta.
Eu quero tanto amar, eu amo tanto querer, eu sou ferida exposta,
Eu quero ver as gentes correndo desvairadas de amor e,
No momento seguinte,
Desacreditando das medidas aceitas e percebendo que tudo é muito mais que a seita
Do estabelecido.
É tudo lindo e lindo e lindo,
É tudo tão caótico e desprotegido
Que não devíamos querer controlar o que bate por fora do raciocínio.
Eu quero amar para além das estratégias
Em um convite para deixarmos de ser as mesmas presas
Do jogo de insinuar-desprezar
Que conduz as conquistas humanas.
Vamos agitar as flâmulas da loucura coletiva
Que é mais calma e sucinta
Que qualquer traquitana criada
Para nos fazer escravos
De uma reza braba
Que sempre diz:
Seja conforme, seja conforme, seja conforme.
Eu já não sei quem sou,
Mas tenho fome
De tudo o que se possa chamar amor,
Ou qualquer outro nome que estoure com brilhos e ouro
Acima das pretensões comezinhas
Da vida citadina e campesina.
Esqueçamos os dogmas, as doutrinas
E sejamos todos iguais
Em nossas idiossincrasias.
Sejamos a erva daninha e a fruta em flor
Do amor.
Sejamos sempre a vida sem temor.

3 comentários:

Unknown disse...

dá tchauzinho pra mim na entrega do prêmio nobel?

Verônica Lutz disse...

Não há monstro pior e mais assustador do que aquele que trazemos dentro de nós...

Verônica Lutz disse...

Escrevo desde 2006.
Mas, sinceramente, não posso dizer que escrevo os poemas. Alguém os sopra no meu ouvido...