
Silêncio oco na ravina,
Relva úmida enregela-me
Em uníssono com a chuva farta e rude.
Eu, semi-morta nua jogada no descampado do não-amor,
Atropelada por um não sei quem, não sei que
Que em verdade eu sempre soube que viria.
Eu sempre sei
E sei tão pouco, tão nada.
A pele fina, toda costurada aqui e ali
Para conter minha alma que teima em transbordar,
Anuncia a virtude e o asco que são minha sina:
Eu sou tão exposta, tão clara e límpida na minha fome de amor,
Que não há um só ser que não se inebrie com o fogo perpétuo
Que vaza das nesgas mal-fechadas
De antigas dores,
De uma estruturação esquerda
Que me faz tão eu, tão única,
Amada e temida
Porque sou chaga viva
E o sangue que vaza de minhas mal-suturadas feridas
Mancha quem se aproxima,
E quem quer fazer má figura
Na valsa social da vida?
Todos tão belos,
Todos tão sublimes
Em suas peles imaculadas
Pela estratégia da precaução.
Ou não.
Há também quem brilhe e pulse,
Há também quem mate e morra,
E, em verdade, não quero ser juíza com a toga do rancor.
Deixo-me por ora estar arrebentada na noite de um negrume profundo,
Para amanhecer fresca da chuva toda,
E como saber o que é a vida
Além dos olhos que são meus?
O que posso saber é que, de momento, a noite é escuro, dor e medo,
Mas não morri antes aqui,
Não morrerei desta feita, tampouco.
Este desterro em campo roto é só mais um decalque em ouro
Que se crava em minha pele-seda rara
E que me faz luzir
Para quem tem olhos para a beleza bizarra
Que se impõe ao artificial.
Vê? Há um algo aqui que não se apaga,
Não se afugenta, não falha.
Há algo de divinal em mim.
E ainda que em parte macerada,
Minha nudez molhada é algo de tão puro, tão imaculado,
Que ascenderei no dorso de mil pássaros,
Leveza e sonho, porque sou assim.
12-6-11

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