domingo, 12 de junho de 2011

ROTA




Silêncio oco na ravina,

Relva úmida enregela-me

Em uníssono com a chuva farta e rude.

Eu, semi-morta nua jogada no descampado do não-amor,

Atropelada por um não sei quem, não sei que

Que em verdade eu sempre soube que viria.

Eu sempre sei

E sei tão pouco, tão nada.

A pele fina, toda costurada aqui e ali

Para conter minha alma que teima em transbordar,

Anuncia a virtude e o asco que são minha sina:

Eu sou tão exposta, tão clara e límpida na minha fome de amor,

Que não há um só ser que não se inebrie com o fogo perpétuo

Que vaza das nesgas mal-fechadas

De antigas dores,

De uma estruturação esquerda

Que me faz tão eu, tão única,

Amada e temida

Porque sou chaga viva

E o sangue que vaza de minhas mal-suturadas feridas

Mancha quem se aproxima,

E quem quer fazer má figura

Na valsa social da vida?

Todos tão belos,

Todos tão sublimes

Em suas peles imaculadas

Pela estratégia da precaução.

Ou não.

Há também quem brilhe e pulse,

Há também quem mate e morra,

E, em verdade, não quero ser juíza com a toga do rancor.

Deixo-me por ora estar arrebentada na noite de um negrume profundo,

Para amanhecer fresca da chuva toda,

E como saber o que é a vida

Além dos olhos que são meus?

O que posso saber é que, de momento, a noite é escuro, dor e medo,

Mas não morri antes aqui,

Não morrerei desta feita, tampouco.

Este desterro em campo roto é só mais um decalque em ouro

Que se crava em minha pele-seda rara

E que me faz luzir

Para quem tem olhos para a beleza bizarra

Que se impõe ao artificial.

Vê? Há um algo aqui que não se apaga,

Não se afugenta, não falha.

Há algo de divinal em mim.

E ainda que em parte macerada,

Minha nudez molhada é algo de tão puro, tão imaculado,

Que ascenderei no dorso de mil pássaros,

Leveza e sonho, porque sou assim.



12-6-11

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