terça-feira, 21 de junho de 2011

VOO



Às vezes tudo fica diluído,


Como num fog a paisagem.


As fronteiras de carne


De minha casa-corpo


Apenas não sabem.


Eu não sei nada.


Não sei.


Não sei.


Jurei para mim lealdade a mim mesma,


Mas o que seria isso?


Evitar o precipício por amor à sensatez


Nunca foi, nem será, de meu feitio,


Mas, uma vez em queda livre,


Aprendendo novas formas de morrer


No choque com os sopés do rochedo do meu medo,


Sinto esmorecer a força do meu desejo,


E já não sei querer,


E já não sei quem ou o que eu quis.


Rezo, muda, com afinco


Para voltar a ser feliz


E a ter paz de espírito,


Que me perdi aqui,


Que me perdi de mim,


Que me perdi em mim,


Que ora sou desatino.


Nublação, no entanto, sempre se vai


Com um pouco de dor,


Com uns poucos ossos tortos da batida do corpo.


Mas a queda livre, temida outrora,


Torna-se cada vez mais mero tombo na rua,


Mero tropeção,


Pois à custa de tanto cair das alturas,


À custa de me espatifar um sem-número de vezes no chão,


Noto, com suave espanto


Que já não morro, não doo em todo o corpo


Porque então aprendi a voar.



21-6-11






segunda-feira, 13 de junho de 2011

REVIRAVOLTA


O que é isso aqui em mim
Que abala estruturas
E grita emoções puras,
Sentidos alertas,
Pulsão de morte e risadas?
É verdadeira paixão desbragada
Ou só birra, manha de menina mimada
Que não sabe ouvir um não?
Coração na boca pra que
Se o que vem do mundo, das gentes
Que aparecem na minha frente
É poesia, gozo, alegria, diversão?
Deixar o medo de lado
E a autocomiseração
Para ser plena de sol,
Refração no prisma que sou,
Espargindo o meu amor por mim,
Meu amor pelo mundo infindo,
Amor por amores possíveis,
Amor por quem possa tocar meu coração
Com dedos leves de carícia,
Sem pecado, sem malícia,
Com o calor de querer bem
Sem se preocupar com isso,
Sem impor um compromisso,
Pois o amor é livre
Para quem quer amar.

13-6-11

domingo, 12 de junho de 2011

ROTA




Silêncio oco na ravina,

Relva úmida enregela-me

Em uníssono com a chuva farta e rude.

Eu, semi-morta nua jogada no descampado do não-amor,

Atropelada por um não sei quem, não sei que

Que em verdade eu sempre soube que viria.

Eu sempre sei

E sei tão pouco, tão nada.

A pele fina, toda costurada aqui e ali

Para conter minha alma que teima em transbordar,

Anuncia a virtude e o asco que são minha sina:

Eu sou tão exposta, tão clara e límpida na minha fome de amor,

Que não há um só ser que não se inebrie com o fogo perpétuo

Que vaza das nesgas mal-fechadas

De antigas dores,

De uma estruturação esquerda

Que me faz tão eu, tão única,

Amada e temida

Porque sou chaga viva

E o sangue que vaza de minhas mal-suturadas feridas

Mancha quem se aproxima,

E quem quer fazer má figura

Na valsa social da vida?

Todos tão belos,

Todos tão sublimes

Em suas peles imaculadas

Pela estratégia da precaução.

Ou não.

Há também quem brilhe e pulse,

Há também quem mate e morra,

E, em verdade, não quero ser juíza com a toga do rancor.

Deixo-me por ora estar arrebentada na noite de um negrume profundo,

Para amanhecer fresca da chuva toda,

E como saber o que é a vida

Além dos olhos que são meus?

O que posso saber é que, de momento, a noite é escuro, dor e medo,

Mas não morri antes aqui,

Não morrerei desta feita, tampouco.

Este desterro em campo roto é só mais um decalque em ouro

Que se crava em minha pele-seda rara

E que me faz luzir

Para quem tem olhos para a beleza bizarra

Que se impõe ao artificial.

Vê? Há um algo aqui que não se apaga,

Não se afugenta, não falha.

Há algo de divinal em mim.

E ainda que em parte macerada,

Minha nudez molhada é algo de tão puro, tão imaculado,

Que ascenderei no dorso de mil pássaros,

Leveza e sonho, porque sou assim.



12-6-11

MUITO MAIS MEU


Silêncios eloquentes
Falam mais que incontáveis versos,
Sei bem.
Na ausência de respostas
Reside a resposta mais clara,
Sem a necessidade de impor questão.
Eu me arrisquei, entrei no jogo de cara lavada,
De pele exposta,
E em nenhum momento joguei.
Vivi, senti.
Você, esfinge pétrea na mesa posta,
Soslaio de olhos e meia voz,
Que sei eu de você?
Mas não importa,
Se o que busco nesta vida
É a própria vida,
Não há finalidades prévias nos encontros,
Há, antes, encontros
E o que quer que neles brote ou morra,
Que pequenas mortes só fazem fortalecer
Sem travo de caqui verde,
Sem criar paredes a quem sabe viver e morrer.
Se não foi com você como não foi com tantos outros,
Pode ser que meu jogo roto,
Ou mais, minha falta de jogo
De cintura, de malícia,
Sejam apenas a evidência
De que o que busco é um novo estado de coisas
Ou sou mesmo boba, e só.
E até que eu encontre quem me corresponda,
Vou assimilando do outro,
Espelho recortado,
Novos lados deste coração de infinitos lados, multifacetado
Que guardo em mim,
Caixa de tesouro delicada
Que, à base de tanta porrada,
Em diamante fundiu-se.
Se não trinco, se não quebro,
Sigo transparente,
Sem mácula que polua o que sinto,
Sempre tentando amar,
Mesmo quando sem correspondência.
Digo-te, querido:
Sou muita carência,
Sou pouco juízo,
Mas deixo-te livre para que você seja o que você é,
Sem mágoa por isso.
Se o tênue fio que fui urdindo a partir da palma de sua mão
Rompeu-se,
Que posso querer eu?
As coisas têm seu tempo de acontecer,
Seu tempo de durar,
E não sigo gestando filho morto
Para eu mesma não apodrecer.
Que a morte de um sentimento incipiente
Seja antes uma outra vida,
Onde eu e você
(mais verdade, menos planos de domínio)
Possamos mesmo ser amigos
Porque, afinal, você soube me compreender.


9-6-11











terça-feira, 7 de junho de 2011

MEU




Gosto de suster a ideia de você em minha mente, meus sentidos,

Incontáveis segundos,

Como delicada marca d'água,

Sutil por entre o encadeamento das pequenas coisas cotidianas,

Indelével.

Se o futuro é incerto, o presente é regalo doce, cálido,

Como a escuma, que explode na pele tal carícia, das vagas mornas do estio.

Quero você, meu amigo,

Quem sabe já amor recém-nascido,

Quero você comigo, em mim,

No espasmo máximo

E no regaço sôfrego e cansado

Do depois.

Quero enlaçar-me nos seus braços,

Desencadear no tempo-espaço

Um lugar perpétuo e sereno,

Onde seremos sempre plenos,

Onde estaremos sempre protegidos

E prontos para um novo capítulo

De nossa epopeia miúda,

Construída com belos fragmentos esparsos e diminutos,

Ninho de nossa história ainda imprecisa,

Mas desde o início, e até se finda, imortal.


7-6-11