terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Natural


Jacintos postos,
Todos chorando na sala dos mortos
O amargor dos dias que não voltam mais.
É o fim, afinal.
Um gosto-ranço de alcatrão curtido
Sobe pelas gargantas conformadas
Com o único fato que não se pode contestar.
Todos devem aprender a enquadrar-se,
Saber comportar-se diante do mundo do artifício.
Mas quando o juízo final se abate sobre os comezinhos
E a vida verte seus suspiros antigos no derradeiro leito,
O que haverá de restar de todas as convenções,
De todo espúrio esforço em fazer-se perfeito,
Em apertar-se dentro da alfaiataria esguia e organizada
Que impede os movimentos ancestrais,
Os desejos basais
E a felicidade banal e gratuita inerente à vida
E à energia jubilosa de um corpo em existência plena?
Um grito reencena a dor tantas vezes engolida
Com falsas cortesias, álcool, pílulas,
Sensações estagnadas.
Que a bifurcação na estrada permita ao tolo e ao covarde
Abrir-se à sabedoria que alardeia a necessidade
De seguir pela senda obscura,
Pelo caminho estranho e tortuoso
Imbuído em seu bojo da verdade de cada um.
Que a solidão seja o abrigo,
Que a imensidão da dor seja apenas o primeiro impulso
Para buscar no mundo o justo sentimento de ser quem se é,
Amando o próprio destino.
Nenhum título ou cargo
Ou comatosa glória,
Nenhuma notoriedade entre as becas e os ilustres
Equipara-se ao extremo regozijo
De vestir-se com um corpo
Amplo como os desejos, os sonhos
E o amor humanos.

1º/2/11

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