sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Os sapatos do Diabo, os sapatos naturais


Eu calcei os sapatos vermelhos do Diabo e dancei e dancei e dancei mil valsas, entregando-me a
esmo.
Eu não os descalçava por medo de ser sozinha, de ser somente.
Eu dançava doente por dançar, sabendo que a dança não traria paz à minh'alma
E me consumi em brasas e em dor em cada novo amor fingido.
Eu fingia amar, eu buscava um Marido,
Um homem que pudesse justificar o fato de eu estar viva.
Eu mentia para mim sabendo ser mentira,
Pois quando a oportunidade de realizar a cantilena sibilina vinha,
Eu comprava o libreto e cantava a ária sentindo-me cada vez mais vazia.
O querer amar não tem preço e não pede garantias de vida,
O querer amar é simples em si e é sempre alegria serena,
É a aceitação das idiossincrasias de cada um sem exigir um contrato vitalício,
Na preservação do sagrado individual em mim e no mundo.

Não caibo inteira neste corpo pequeno, mirrado, assim esparjo-me e me irradio,
O meu destino é doar o meu calor divino sem ônus, sem dor, só carinho,
Mas não há esforço nisso, é tão natural, é tão meu destino
Que fazê-lo só me faz bem.
Não preciso de camisas-de-força e de contentores em forma de convenção moral
Para ser igual às moças de minha idade, para me integrar à sociedade
Porque eu não posso ser definida e justificada por nomes e aparências, de fora para dentro.
Eu só posso ser o que sou e deixar-me livre para ser o que sou,
Mesmo sabendo que o mundo ordinário sempre há de me olhar com desconfiança,
Como quem diz "é louca".
Louca eu não sou, só da loucura santa de prescindir do senso comum para ser sentido e sensação
plenos.


Eu quis ceifar meus pés para cessar a dança viperina
De querer atrelar à minha natureza divina e virginal uma âncora que tudo definisse,
Mas meu próprio corpo detinha a sabedoria de descalçar o couro tingido de sangue imolado
E pude jogar os calçados lustrosos do Inominado numa vala da via campesina em que me
encontrava.
E ao descalçá-los, descobri-me viva,
Um pouco dolorida, mas segura e tranquila.
Eu sou.
Estou inteira aqui em mim.
Eu não preciso de quem me defina.
E com meus dedos longos fui colhendo as flores que ladeavam o caminho
Para forjar delicadas sapatilhas que se mantêm cingidas
Exclusivamente pela vontade que tenho de que elas existam.
São macias, pétalas finas e olorosas que, suaves, envolvem meus pés
Como acariciando-lhes as feridas cicatrizadas,
Para conduzi-los pela estrada que eu não escolho, mas que surge à medida em que me permito
ser sempre e mais eu mesma.

18/2/2011

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