terça-feira, 28 de dezembro de 2010

ano novo


E com o fim do ano e a iminência de um novo ciclo,
Novos desejos, tantos votos de uma nova vida, de uma vida mais
feliz.
Embora saibamos que nada há de mudar da noite pro dia e um ano a mais é
apenas um ano a mais,
Não podemos evitar a esperança que brota de lugares secretos, com uma
energia insuspeita que se insurge no peito de cada indivíduo deste mundo humano
superlativo,
Cada um pronto a acreditar no milagre divino.

O milagre não virá.
A mudança não há de chegar com o raiar do primeiro dia,
Não despertaremos clarividentes de uma catarse súbita, nada muda, é tudo
igual.
Amaheceremos rotos pela ressaca do espumante estourado com
estardalhaço,
Limparemos os resquícios da festa feita em casa ou deixaremos a tarefa a
outrem nos bares e restaurantes,
Pensaremos entre aborrecidos e desanimados no retorno ao trabalho, no
cansaço diário,
Beijaremos os nossos com ternura e seguiremos o passar dos dias que se
sucedem tão organizadinhos de um em um, com seus nomes e números criados com a
paradoxal tarefa de obliterar a passagem de um tempo que, antes de ser
convenção, era apenas existência em estado bruto.

Nada há de mudar, mas fique clara
A oportunidade única na troca de anos:
Movidos pela ilusão que nos diz que tudo pode ser instantaneamente
diferente,
Quem sabe a gente se dê conta de que a primeira coisa a mudar
É o nosso olhar para os nossos dias, para os dias de cada um.
E à força de querer tanto ver uma nova beleza, uma felicidade
primeva
Nos dias que chegam,
Perceber que a felicidade e a beleza estão na construção de uma história
única e pessoal,
Formada pelas pequenas cadeias de fatos ora curiosos, ora
insensatos,
Ora de uma simplicidade desarmada e desarmadora
Que insistimos em esquecer a cada pouso de cabeça no travesseiro.
Que o primeiro dia do ano seja a celebração de mais um ano,
Um ano a mais em que escrevemos com nossa pele, sangue, saliva, gozo e
choro
As pequenezas emocionantes da vida.
Que seja um dia depois de outro dia e que eu consiga viver todos os instantes em seus instantes,
E não depois ou antes,
Que eu esteja sempre aqui, feliz de estar aqui,
E que meus desejos de mudanças sejam projetos postos em prática cotidianamente,
Sem planos fulgurosos para um futuro sempre além.
Que assim seja para mim e para todos que o quiserem também.



29/12/2010

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

S/ TÍTULO


Aqui, encolhidinha. Recém-nascida de pele fina, engruvinhada,

Tateando para saber por onde ir, ainda sem enxergar.

Sem temor, tudo novo,

Tanta coisa para saber do zero, começo fresco como folhas verdes,

Como a corrente de água que segue cristalina mesmo depois de correr pela sarjeta,

Como um universo inteiro contido na vespa furta-cor.

Não há ódio, tristeza ainda,

Mas algo devia sair, devia ser posto fora

E agora há de se esvair finalmente.

Um aprendizado de passos titubeantes até a firmeza das pernas ditar um caminho único,

Porque só há um caminho a seguir.

Mas calma, sempre calma e persistência suave...

A vida é tenaz, é preciso resistir aos impulsos do fácil.

Estar aqui, estar em mim

É imperioso.

A vida mundana despeja estímulos vãos,

Desejos fugazes e insatisfação.

É preciso resistir,

Limpar os ouvidos da alma com a maior delicadeza

Para se saber, sempre, e a rota surge inequívoca.

Cada um nasceu para um algo, não há mistério nisso.

A vida é de uma simplicidade estarrecedora.

É preciso resistir. É certo brilhar

O brilho da força que está

Em seguir sem medo aquilo que se é no mais profundo de si.


9/12/2010

segunda-feira, 12 de julho de 2010

VATICÍNIO


Você me veio quando eu nada esperava,

Sentada no nada de não ter amor.

Você me veio tão pronto, inteiro,

Tão pleno de tudo o que me faltava então.

Você nem chegou, estabeleceu-se em mim,

Como a flor domina a terra em que brota,

Serenamente.

Crivou-me suas garras firmes

A me fazer sua,

A me colocar em uma estrada comum.

A nos colocar em uma mesma estrada.

Com seu dom de Deus, de ser poderoso e todo,

Construiu a paisagem do caminho,

Fez as pedras e os espinhos e o riacho fresco,

E a comida boa, e o sol em brilhos.

Eu obedeci, amei cada uma de suas coisas,

Cada um de seus domínios,

Cada gota de seu cheiro de lírio,

De seu mar e mel.

Amei seus desejos comezinhos

Porque, antes de ser o Deus do catolicismo,

Você é um Deus pagão, Deus grego,

Baco a sentir medo,

Deus de poder e malícia.

Nossas mãos seguiam juntas, apertadas,

Mas eis que, num estalo do caminho,

Surgiu um ninho onde dormia um menino

Sem ser Deus, sem buscar tudo de mim,

Querendo-me de uma forma tão livre

Que calou meu peito,

Que confundiu o mundo.

Os juncos da estrada viraram então correntes,

Vi-me presa a um mundo que não criei,

Mas que abracei amando, porque eu te amo.

O amor, no entanto, comete enganos.

Amor pode cegar e não nos acompanhar na própria trilha.

Pisquei os olhos e tudo voltou a ser seu mundo.

Imaginei que tudo fazia parte de uma fantasia minha.

O ninho, o menino, o vento que ele traz nos dedos.

Agora não posso seguir adiante,

Nem perto de ti, nem longe,

Porque não sei se o que guarda o ninho

É o menino-amor vindo em murmúrio

Ou um pesadelo de não te ter junto.

6/11/02

terça-feira, 8 de junho de 2010

HÁ OUTROS ANIMAIS NA PRAÇA




Ah, se as outras crianças

Quisessem brincar comigo.

Elas querem os meus brinquedos,

Mais novos, mais bonitos, coloridos,

Mas não querem brincar comigo

Porque tenho caninos compridos

Demais.

As outras crianças riem do que digo

Achando graça,

Mas olham com um desprezo quando eu passo

Que o meu coração sanguíneo trinca e dói.

Eu queria tanto ser aceita pelas crianças

Porque também sou criança

E me afeiçoo,

Crianças são cruéis, no entanto,

Vêem-me em prantos e só podem rir

Dos pelos de minhas faces e mãos.

Em um instante há de passar esta dor,

Depois do tufão de lágrimas,

De abrir o peito com os dedos,

De voltar a sentir o ombro esquerdo,

De me olhar no espelho e ver com meus olhos de lince

Que as crianças tem medo de brincar comigo

Porque sou um animal

Ainda que domesticado.

Não entendem o que eu digo

Mesmo eu tendo estudado a língua humana

Nos tantos anos em que vivo entre humanos.

E mesmo que eu raspe meus pelos

Eles voltam a crescer, espessos.

E mesmo que eu finja ver com os olhos deles

Meu olhar é mais certeiro.

E mesmo eu diga para mim que não ligo

Para os olhares zombeteiros,

Para as críticas espremidas entre dedos,

Para as faces contraídas de desprezo,

Uma hora meu corpo fica cheio

De dor e água,

E haja lágrima para transbordar minha tristeza e raiva.

Tudo bem.

Uma hora passa.

E com meu olhar que vai além

Posso notar outros animais disfarçados na praça,

Com quem posso brincar

Sentindo o que sentem almas afins.

25/3/07

segunda-feira, 7 de junho de 2010

EFEMÉRIDE


Então travou garganta

No espasmo mudo do espanto, tanto.

Meu tempo passando

E eu aqui.

Pensei que morri,

Mas não desta vez.

Não tenho mais ouro debruando sonhos tolos,

Não há nada mais que eu queira além de mim.

Nada há de mais importante que a certeza de que sou quem sou e de que posso arcar com [isto,

Comigo.

Os amigos, amargos uns, outros agora.

Por que me importar com convenções, se quero vida?

Seja rasgo de luz cada dia,

Desperta em mim a energia de mudar e ser nova sempre,

Acumulando com gosto os anos que me forem permitidos viver,

Lancinando algo aberto que não a batida chaga no peito,

Que seja o centro do mundo o meu coração extremo.

Arranco as garras do amargor e do veneno

Que roubam o viço das pequenas descobertas diárias.

Só morrerei quando esquecer de me surpreender com as bobagens sublimes que não se [pode divisar,

Percebidas na sutileza de sentidos outros,

Um estalo de corpo,

Fuligem ao vento e eu canto, amuleto.

Que eu seja sempre instrumento

Do algo maior que alguns chamam Deus,

Mas não tem nome de fato pela impossibilidade de classificação restritiva na língua e no [entendimento parco.

Podendo ser o que quiser,

Deixando canais expostos para receber o toque astral,

Expurgar um outro que fui, não sou mais,

Sinais do tempo que não se mede em ponteiros

Além do nascer e por, nascer e por

Do sol, dos homens, da vida.

Sou ferida súlfur que arde para explodir ferinas fagulhas ativas,

Exorto à ação:

Seja fulgural

Ante à predileção pela frugalidade e o banal.

Há violetas em álcool chamuscando um céu algoz

De boçais cultivadores do óbvio, do jornal e da vitrine.

Não caiba em si

O dia e você,

Seja transversal do sol,

Engastar cometas em capa de cristal,

Veludo azul que embrulha o mundo

Que quero real para mais, muito mais

Que permitem os que não se permitem

Ser alguém de fato.

Não pago barato as lentes épicas

Que embuti no lugar das córneas do lugar comum,

Mas não peço amém a ninguém,

A nenhum porco roliço do deixa-disso.

Eu quero mais,

Areia movediça não me para,

Não me impede,

Eu feroz,

Cuja cantilena, voz da hiena escarnecendo o ínfimo,

Ecoa em tímpanos beduínos ávidos por destino tal qual,

Até que sejamos a individual tribo

Coletiva de entes sós não solitários.

domingo, 6 de junho de 2010

A CADA GOTA


A vida tateia surda por seus domínios obscuros
Tentativa e erro de suportar a dor,
Mas e o meu afrodisíaco?
Tentativa e erro, o sexo vem,
Mas é resto, restolho, é pouco,
Ainda que o estímulo para acontecer
Seja a gota de sêmen, a gota de sangue,
A gota sagrada, vaticínio.
Vasculho artérias e veias em busca do amor,
Em busca da faísca que risque e queime meu desejo,
Em busca da origem de tudo,
Da origem do homem,
Da origem da dor que levou para longe o meu desejo.
Ensejo, a gota de leite inspirador que me leve,
A gota de minha dor que se desvaneça,
A corda de minha história que se desenrole lenta,
Sem pressa, mas atenta e vibrante e sempre queira.
Enquanto não posso, enquanto me foge o furor de anos
Jovens, nos quais eu deveria ser sem engano,
Enquanto a dor me corta o cenho e o cérebro e minhas idéias,
Hei de procurar a gota etérea
Que há de me fazer gozar em bólides,
O meu celeste afrodisíaco.
Mas se não existir tão potente afrodisíaco,
Ou mesmo se seu poder for ínfimo,
Saberei doer de uma vez e encontrar a morte?

2002

domingo, 30 de maio de 2010

CRUCIAL


O que sustenta ainda este corpo cansado?

A nicotina do cigarro?

A vida lá fora, que passa longe do meu alcance

E que só vejo da sacada do 8º andar?

Algo há de me sustentar viva, mas viva mesmo,

Não um arremedo de gente presa ao banco e ao tapete.

Capacho.

Presa ao monitor e à rede que acelerou a vida,

Antes menos “maravilhosa”,

Menos corrida,

Menos repleta de sonhos de glória universal,

Porque antes era pequenina

E simples

E prescindia de adjetivos e de ideais longínquos.

Antes tudo era aqui em mim

E eu era o centro.

Agora me procuro em fragmentos

Que capto em momentos esparsos,

No cigarro que fumo como forma de fugir do espaço opressor

Que me engoliu

E do qual não encontro a porta de saída,

Perdida que estou entre letras e formatos

E o brilho baço do monitor.

Espasmo de dor.

Um laivo.

Mas não morri, não morrerei tampouco

Deste cotidiano louco

Porque existo e resisto dentro de mim,

Do que sinto

E de meus bonitos amores,

Pois que sublimes em sua liberdade de ser muito mais que nomes,

De prescindir da posse,

Porque amo tudo que floresce em seu estado natural,

Seja planta, gente ou animal

Ou as preces que a mim invoco.

Para tudo há um tempo e um lugar,

Para tudo há a hora certa,

E quando eu souber desatar as cordas

Que me amarram as pernas

Saberei achar a porta,

Saberei ir embora sem, contudo, dar as costas a tudo que vivi.

Sem esquecer que o que sou se deve ao que fui,

Assim como o que serei.

Arriscando trôpegos passos à beira do precipício,

Sinto vertigem e fome do espírito,

Mas é a rarefação do ar que há de me entregar

O perfeito fio do raciocínio.

E, no fim desta pequena jornada,

Apenas parte do maior caminho,

Eu, um pouco esgotada,

Serei cada vez mais forte em mim.

Quando os olhos deixarem de buscar a saída

E o negrume já tiver absorvido todo o dia,

Quando eu já não estiver me agarrando a nada,

Eis que então, súbito clarão,

Minha epifania, minha revelação

Surgirá.

E todas as peças que parecem não se encaixar

Formarão o descomunal caos organizado

Do fogo e da fúria

E da loucura

Que por mim se tornou gente,

Pois sou Deus, como ele me é.

Eu sou.

23/5/06