Você me veio quando eu nada esperava,
Sentada no nada de não ter amor.
Você me veio tão pronto, inteiro,
Tão pleno de tudo o que me faltava então.
Você nem chegou, estabeleceu-se em mim,
Como a flor domina a terra em que brota,
Serenamente.
Crivou-me suas garras firmes
A me fazer sua,
A me colocar em uma estrada comum.
A nos colocar em uma mesma estrada.
Com seu dom de Deus, de ser poderoso e todo,
Construiu a paisagem do caminho,
Fez as pedras e os espinhos e o riacho fresco,
E a comida boa, e o sol em brilhos.
Eu obedeci, amei cada uma de suas coisas,
Cada um de seus domínios,
Cada gota de seu cheiro de lírio,
De seu mar e mel.
Amei seus desejos comezinhos
Porque, antes de ser o Deus do catolicismo,
Você é um Deus pagão, Deus grego,
Baco a sentir medo,
Deus de poder e malícia.
Nossas mãos seguiam juntas, apertadas,
Mas eis que, num estalo do caminho,
Surgiu um ninho onde dormia um menino
Sem ser Deus, sem buscar tudo de mim,
Querendo-me de uma forma tão livre
Que calou meu peito,
Que confundiu o mundo.
Os juncos da estrada viraram então correntes,
Vi-me presa a um mundo que não criei,
Mas que abracei amando, porque eu te amo.
O amor, no entanto, comete enganos.
Amor pode cegar e não nos acompanhar na própria trilha.
Pisquei os olhos e tudo voltou a ser seu mundo.
Imaginei que tudo fazia parte de uma fantasia minha.
O ninho, o menino, o vento que ele traz nos dedos.
Agora não posso seguir adiante,
Nem perto de ti, nem longe,
Porque não sei se o que guarda o ninho
É o menino-amor vindo em murmúrio
Ou um pesadelo de não te ter junto.
6/11/02

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