segunda-feira, 12 de julho de 2010

VATICÍNIO


Você me veio quando eu nada esperava,

Sentada no nada de não ter amor.

Você me veio tão pronto, inteiro,

Tão pleno de tudo o que me faltava então.

Você nem chegou, estabeleceu-se em mim,

Como a flor domina a terra em que brota,

Serenamente.

Crivou-me suas garras firmes

A me fazer sua,

A me colocar em uma estrada comum.

A nos colocar em uma mesma estrada.

Com seu dom de Deus, de ser poderoso e todo,

Construiu a paisagem do caminho,

Fez as pedras e os espinhos e o riacho fresco,

E a comida boa, e o sol em brilhos.

Eu obedeci, amei cada uma de suas coisas,

Cada um de seus domínios,

Cada gota de seu cheiro de lírio,

De seu mar e mel.

Amei seus desejos comezinhos

Porque, antes de ser o Deus do catolicismo,

Você é um Deus pagão, Deus grego,

Baco a sentir medo,

Deus de poder e malícia.

Nossas mãos seguiam juntas, apertadas,

Mas eis que, num estalo do caminho,

Surgiu um ninho onde dormia um menino

Sem ser Deus, sem buscar tudo de mim,

Querendo-me de uma forma tão livre

Que calou meu peito,

Que confundiu o mundo.

Os juncos da estrada viraram então correntes,

Vi-me presa a um mundo que não criei,

Mas que abracei amando, porque eu te amo.

O amor, no entanto, comete enganos.

Amor pode cegar e não nos acompanhar na própria trilha.

Pisquei os olhos e tudo voltou a ser seu mundo.

Imaginei que tudo fazia parte de uma fantasia minha.

O ninho, o menino, o vento que ele traz nos dedos.

Agora não posso seguir adiante,

Nem perto de ti, nem longe,

Porque não sei se o que guarda o ninho

É o menino-amor vindo em murmúrio

Ou um pesadelo de não te ter junto.

6/11/02

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