quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

PÂNTANO


Dediquei-te tanto de meu pensamento e peito apertado,
Um amor que não pediu nada para acontecer
Nem pediria nada para se manter vivo,
Só dependia do seu sorriso sincero para mim
E do cuidado de ser lembrado como momento pleno.

Eu não escolhi querer você,
Quando te vi perdi o rumo e o olhar baixou turvo,
Tímido, absorto em suas formas impressas no córtex do meu coração,
A memória de você, estarrecedor em mim, reverberando
Sua presença diante de minha cabeça baixa, sem coragem de encará-lo mais uma vez.

Te quis ali, fulminantemente. Não tinha escolha a não ser seguir o destino que me impelia a ser tua.
E um desejo sem mácula vindo de ti seria o doce alento de um amor distante e impossível,
Dessa forma tornado possível, porque atrelado à atenção que se dedica aos seres sagrados
Que prescindem da matéria e são absolutos e somente essência,
Éter e sentir,
Que amamos sem precisar tocar.
Era apenas não aviltar algo tão simples e preciso,
Era ter a coragem de deixar ser o que não poderia deixar de ser,
Deixá-lo pairar acima do juízo mesquinho dos homens.

Mas você, corpo que amei, não tinha em si o sopro da delicadeza,
Criado entre bichos e machos ufanos, você, o mais belo entre todos,
Tão mais belo que qualquer um deles,
Destoando e doendo sua beleza-doença
Pela qual tantas outras outrora se perderam.
Então chegara minha vez.

Deixou as serpentes insidiosas da inveja cravarem dentes venenosos em meu pescoço exposto
Ao seu beijo, ao seu toque,
Permitiu a passagem das bestas que sem sua conivência não teriam chegado até mim.
Tomou-me sua na entrega extrema para me jogar na rua do desprezo,
Olhando insidiosamente com seus belos olhos amarelos o meu desespero mudo, tateando cegada pelas chamas dos sorrisos cínicos
Em busca de um caminho, um caminho, qualquer caminho
Que me levasse para fora do labirinto
Em que eu mesma me coloquei.
Eu não te amei, eu não te amei, eu não te amei,
Mas como me doeu não poder te amar!
Eu busquei em você tudo o que poderia fazê-lo melhor e pedi
“Venha comigo para o prado fresco onde não há tempo de termos medo,
Onde não queremos o degredo e a prisão de quem amamos”.
Seu ouvido, conectado aos silvos agudos das serpentes do “eu sou tudo”,
Que trinavam o vaticínio da vaidade e do escárnio do qual você não percebeu poder desistir,
Fizeram pouco do que eu disse ali, moucos.
Sangrei o que pude e o que devia e me despedi da vida daquele lugar, tanto paraíso quanto martírio,
Despedaçando a ilusão de ter encontrado mais do que beleza, mas algo de genuíno.

Eu fui sua num gozo morto, na pressão de suas mãos brutas me pegando o quanto queriam
E não gozei e gozei o quanto quis e senti, eu fui sua.
Você morreu em mim pequenas mortes tantas vezes, de um som límpido e um pulsar sensível,
Eu te deixei lá longe para mandar pelo pombo a mensagem da execração que você merecia.
Você não teve coragem de dizer nada, você, covarde, virou a cara com medo,
Pois tudo o que queria era o meu amor supremo.
Você não suportou minha consciência tardia, entendendo que me perdera cedo e definitivamente.
Você escondeu seu urro para não deixar que vissem sua vergonha cretina
E eu pude sorrir livre de você, ainda dolorida no peito amassado e queimada por seu toque firme de hidra.
Fui ofendida, banida de volta à minha casa e me redescobri viva.
Você ficou parvo e pensou de novo em meu regaço, nós dois acesos,
Suando inteiros, você me quis novamente sabendo ser impossível,
Você está condenado a viver comigo sem a esperança de estar comigo,
Sozinho em sua arrogância de menino soterrada por uma dor que você sequer entende,
Mas que brilha e implode seu esterno cada vez que sopra o vento que carrega meu cheiro.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

DUAS POESIAS


ECLOSÃO

Estou em mim e nada sei.
Estou aqui, algo insurge,
Mas não sei o que.
Minha casa é demolição; a rotina, tépida e tranqüila,
Mas o monstro se avizinha.
Não o monstro que eu antes temia,
Não aquele com garras daninhas a me puxar pelo pé.
Este é novo e desconhecido e ruge entre dentes uma urgência que não posso esquecer.
Sou eu, aqui.
Sou eu a clamar por mim, eu em minha essência mais bruta,
Mais pura,
Gritando para eu me ser eu me ser eu ser ser ser.
Esquecer o que foi até então,
Sair das almofadas de minha prisão,
E meu mundo pessoal esfacela-se na busca por algo além
Que não está além em absoluto,
Mas aqui,
Soterrado, soturno,
Esperando sair.
Talvez meu riso seja menos,
Talvez uma placidez poderosa se apodere de mim.
Um monstro de vontade e instante a realizar
Maravilhas que vi em sonhos
E roçam e beliscam as pontas de meus dedos elétricos
Desde que nasci.
É a busca por ser quem nunca deixei de ser,
Mas nunca fui por inteiro.
É a fome de fevereiro, a febre do útero
Trincando a casca da concordância, do que está.
Não quero mais pensar.
Já pensei para tantas vidas...
Quero fazer sair de minhas tetas explosões e raios
E de minha buceta a luz que ofusca nações perplexas,
Para incorrer em erros palpáveis, verdades concretas,
Enfim,
O tudo que preciso realizar e que não sai daqui,
Mas desliza unhas feéricas pelas plantas de meus pés cansados de seguir a trilha já batida
[de passos e passos e passos cansados também, por sua vez.
Eu quero o marasmo que vem depois de todo ato,
Depois do espetáculo gutural que me provém de fogo.
Eu quero o prazer morto de prazer, e renascer da morte
Para me reinventar um pouco por dia, sempre nascendo outras,
Que eu não sei ser só um eu,
Sou tanto, tantas, tudo,
Sou mundo caótico de sonhos, abalroado por manadas tórridas
Insurgidas pelas planícies de luas incomensuráveis, infindas.
Perder a língua para ter labaredas entre dentes,
Falar por meio da garganta vulcânica que aqui há.
Eu hei de fecundar a Terra e da Terra gerar
O rebento atroz, sangüíneo,
Cuja voz há de estourar os tímpanos da razão para trazer à tona o riso e o gozo
Que antevejo por olhos entreabertos,
Mas evito, por medo de ser mais.
Eu quero inundar de sêmen os mananciais que alimentam as cidades,
Incrustada em mandalas ancestrais que me trazem a completude da consciência da
[manquidão
Que não se pode alterar.
Mancando, com a face animal, os olhos injetados,
Rubor de louca a desvirginar as costas,
Minhas costas e o mar,
Quero cavalgar no ritmo secular do vento,
Desistir do restritivo humano para ser centauro e gueixa e bicho e tudo o que me atravessar,
O corpo retalhado em brechas incandescentes
Porque não posso escapar de mim.

15/3/07

PRISMA

Hoje me pego no meio do caminho,
Mas estou mesmo no meio do caminho?
Com trinta anos, tudo se sabe
E nada se pode saber.
Meio do caminho, mas posso viver até os noventa
Ou morrer amanhã.
A vida já não dói como doía aos vinte,
Como doía na adolescência.
No entanto, o medo continua ardendo,
Talvez mais grave, mais forte.
Medo de sofrer violência em um mundo cada vez mais rude.
Medo de morrer cedo sem cumprir as tantas promessas que me fiz.
Medo de ser forte e espantar os homens, o companheiro possível, com minha força.
Mas estou aqui e não morri.
Morrerei. O que eu amo, quem eu amo, morrerá
E a morte é uma idéia definitiva e dura.
Há que se enfrentá-la, no entanto.
Não sou mais jovem, tampouco velha
E a consciência de minha pouca durabilidade me fere a carne.
Algo me dói e nada me dói, é a dívida de minha humanidade.
Jurei tantas coisas, tantas coisas traí, e sigo à minha própria sorte.
Quanto amei e a quantos fiz sofrer?
Algo aqui dentro arde.
Quero tanto e o tanto que hei de querer viver à mercê,
Porque desconheço o que virá e o meu desejo.
Quem sou eu? Algo grita em mim para que eu pare de pensar
E a vida segue ao largo e em mim,
Ao contrário de tudo o que sonhei.
Talvez seja um ajuste de contas que devo a mim mesma,
Prestes a ser adulta definitivamente
E, como nunca antes, criança perdida.
Quero mais poesia na vida, quero me divertir
E abraçar os corpos dos que amo,
Mas tudo é tão mundano que o amor e o abraço e mesmo o desejo são computados
A esmo,
Como o sexo do comercial de TV e do filme pornográfico.
Por que acreditar em estruturas que cerceiam o que de puro tenho?
Por que acreditar que menos é o meio
Quando quero explodir meus anseios e minha alegria para uma volta olímpica
Em torno da piscina do que rio?
Eu sou desatino e tento me controlar.
Eu sou vaticínio e tento amar a epopéia dos homens,
Amar a elegia do sempre o mesmo,
Mas eu sou tão descompenso, descompasso,
Eu sou tão desgarrada deste mundo de certezas que não criei e não almejo.
Eu sou percevejo carcomendo as beiradas da sanidade impregnada e imposta.
Eu quero tanto amar, eu amo tanto querer, eu sou ferida exposta,
Eu quero ver as gentes correndo desvairadas de amor e,
No momento seguinte,
Desacreditando das medidas aceitas e percebendo que tudo é muito mais que a seita
Do estabelecido.
É tudo lindo e lindo e lindo,
É tudo tão caótico e desprotegido
Que não devíamos querer controlar o que bate por fora do raciocínio.
Eu quero amar para além das estratégias
Em um convite para deixarmos de ser as mesmas presas
Do jogo de insinuar-desprezar
Que conduz as conquistas humanas.
Vamos agitar as flâmulas da loucura coletiva
Que é mais calma e sucinta
Que qualquer traquitana criada
Para nos fazer escravos
De uma reza braba
Que sempre diz:
Seja conforme, seja conforme, seja conforme.
Eu já não sei quem sou,
Mas tenho fome
De tudo o que se possa chamar amor,
Ou qualquer outro nome que estoure com brilhos e ouro
Acima das pretensões comezinhas
Da vida citadina e campesina.
Esqueçamos os dogmas, as doutrinas
E sejamos todos iguais
Em nossas idiossincrasias.
Sejamos a erva daninha e a fruta em flor
Do amor.
Sejamos sempre a vida sem temor.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

CALMARIA


A vida tem andado tranqüila
Como nunca foi,
Estou mais calma, menos doída,
O destino não parece crucial.
Há conforto, comida farta
E tantos berloques para me divertir,
Mas quanto mais me divirto
Menos acho graça,
Diversão banal, insossa.

Prefiro estar sozinha aqui em mim,
Quieta, sem a balbúrdia habitual
Da vida social,
Cujo ritmo próprio tão definido
Atropela meu sentidos e o que sinto.
Ainda há em mim muito da tola euforia
E da necessidade de preencher os dias a qualquer custo,
Mas tenho tido mais do meu silêncio.

Quero voltar meu pensamento para o que me alimenta
Porque o dia a dia, ainda que tranqüilo, não me faz plena,
É apenas uma parcela necessária para me possibilitar o esteio,
O meio de vida,
Enquanto a vida vai além.
Não estou deprimida, não me sinto desperdiçando meus dias,
Mas entendo que há muito mais para buscar
E que o lugar que hoje ocupo é só circunstancial,
Estou em um ponto específico de um caminho que tem muito que desenrolar.
Mesmo no meu tempo vago fazendo pouco
Para o que se espera de alguém em busca do novo,
Meu corpo e minha mente revolvem-se a todo momento,
Tateando as paredes do que ainda não conheço,
Mas busco
Para ser meu verdadeiro alimento.

Eu não sei o que serei, hoje já não almejo
Ser alguém de renome em algum segmento invejável
Somente espero que o incômodo que quase já não sinto,
Mas que me lembra o tempo todo de que preciso
Não de menos ou de mais,
E sim de algo diverso, outro,
Que essa centelha que será eterna em mim
Mesmo depois que eu tiver ido daqui
Escave um outro mundo a que fui ensinada a não dar ouvidos
E eu volte a ser bicho
Sem perder o juízo
Sendo sempre e mais comigo.


1/5/07

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

EU SOU O MENSAGEIRO DA INCERTEZA


A peste nos olhos divinos rasga corpos evadidos de si, corpos sombrios
E sem alma
Vagando por escadas de ópio, degraus em escalada íngreme para baixo,
Caminho que não passa, não vai, liga o nada a nada e adormece sentidos.
O morticínio está no centro da praça, saltando do peito da massa inerte de seres ocos
Pensando pouco.
A mortandade como de peixes dinamitados em água barrenta, ninguém a gritar socorro,
Olhos e ouvidos moucos, gente que renegou sua humanidade, atirada a esmo numa vala do caminho,
Para deglutir e cuspir desgraça atrás de desgraça atrás de desgraça.
Quem se importa...
Divididos em tribos distinguidas apenas por suas penas e costumes externos,
E adereços e brilhos na pele e escuros pensamentos, ignóbeis desejos e ralos vaticínios,
O futuro entregue a um Deus que se perdeu dos homens muito antes de serem nascidos,
Um Deus brutal e vingativo que deu as costas ao seu domínio ímpio, espezinho.
Não há a quem gritar, não há quem grite.
Entre tantos com vozes límpidas e poderosas, ninguém quer dissonar do restolho todo
Que repete mentalmente a ordem da vez: não seja e fique calado,
Apenas um boneco articulado e reconhecido pelo mundo dos mortos-vivos.

Que eu seja a peste nos olhos dos moribundos a deflagrar a ruptura da musculatura, carne inerte e inútil,
Que eu seja uma dor maior, outra dor, que faça o clarão da excruciante consciência.
No pacto com os céus ebúrneos eu vi passado e futuro explodirem para serem o que quisermos,
A dúvida a queimar os olhos porque não há caminho pronto para seguir, é preciso reinventar a História.
Se não há outro alguém para querer e assumir o cataclisma crucial de um querer outro,
Que eu seja o vivo-morto que renegou todos os tolos, banhado em luz e petróleo pegajoso e fogo,
Para massacrar aos poucos os habitantes mornos das prisões das convenções cretinas.
Que eu destile a minha sina venenosa nas boquiabertas bocas estarrecidas,
Fazendo um pacto com esse Deus mesquinho e rancoroso a quem recorrem todos os dias em seu próprio torvelinho fútil
Os pequenos de alma, os poucos de vida, os que querem apenas o arroto de satisfação tola com a pança cheia de presunção.
Que eu seja o último remanescente dos que ousaram querer e pagaram o preço incomensurável com a própria certeza de vida
Para viver realmente.
Eu despi a mortalha, músculos em brasa de sangue a gritar obscenidades entre as caras lavadas,
Eu vou ganir pelas salas morosas da não-realização.
Eu vou fender as garras afiadas o meu próprio destino incerto e desprecavido
Para morder frutos tidos por venenosos e estrebuchar o querosene que me mantém cativo ao deleite do frugal.
Eu vou viver de sal, esturricar por dentro e por fora, a pele crestada pela sede eterna do novo.
Eu não quero pouco e não faço por menos,
Dormindo no sereno para refrescar a secura de um corpo transbordando dentro
A alma inaplacável, iridescente, espargindo urros inclementes
Para fazer ouvir ouvidos surdos,
Para repercutir em todo o mundo morto que pode ser renascido
Se um querer fizer sentido e ressoar como hino.
Vou espargir por aí a fúria inesgotável do meu querer hediondo e sagrado
Para acordar a todos, que insistem em ser calados pelo marasmo,
Vou me entregar em espasmos a este trabalho hercúleo e insano,
Derreter os enganos para gerar a incerteza que é viver com todas as forças.
Hei de me fartar da taça da glória conquistada ou morrerei tentando.

16/1/08