segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Morte ao Rei


Da janela escura de meu peito oco
Espreita uma coruja:
Um pio, um silvo, um gorjeio
Lúgubre.
Estou aqui em mim, sentidos vivos,
Coração espremido em minha mão,
Meio do caminho.
Meus olhos cegos voltados para o interior das órbitas...
Não tenho tempo para o mundo fora,
Tudo urge em mim,
Tudo aqui,
Palpitando, sanguíneo
Alvorecer outro.
Eu sei que a mudança é lenta,
Surda e muda
E dói tanto,
Estocadas firmes do punhal ferino
Empunhado por mim mesma.
Cartas à mesa, questão de arrefecer
O Rei posto, o Rei morto
Que criei para me manter cativa
Do mundinho lugar-comum,
Refém da autocomiseração e do escárnio da massa na praça.
Mas eu não sou força que cessa,
Eu sou osso duro,
Eu não me faço de tonta
Para não ser julgada louca,
E se calo minha boca,
É na defesa de minha energia sagrada,
Que não há de alimentar nada mais que me ponha prostrada
Diante do algoz inventado,
Espreitando no brilho desumano e megalômano
Da fantasia de perfeição
Que urdi com fios de ouro para ti,
Pai,
Fugido há tanto,
Morador espectral da minha cabeça.
Engano.

16/9/2012

Um comentário:

Fernanda Assef disse...

UAU. amei. tão lindo. tão forte. tão feminino. vou copiar