SELVAGEM
A vontade ferina atravessa uma vontade além,
Implosão interna que não se pode saber bem sem experimentar profundo
Algo de gutural oculto dos olhos mundanos, do jugo dos homens,
Da boca de senhoras silentes em olhos jocosos.
Mas eu sou, energia que se afirma em si,
Rasgando ganas a se crispar eterna em cada coisa da Terra,
Em cada estrela fugidia que brilhava um dia e só vi quando morreu.
Morfeu foi meu silêncio um dia; Orfeu, meu amante;
Para seguir adiante, doravante, que eu adore Afrodite e as vestais,
Imbuída demais de Atena, enxergando através das hipocrisias,
Em mente que pressente tudo que há, transcendendo a cognição
Restritiva, estúpida, mesquinha,
Criada pelos senhores de cartola e meio-fraque.
Eu, querendo a guerra santa, provoco o baque da ruptura com o estanque,
Eu sigo em frente, destemor feito gente,
Feito carne,
Eu, aquilo que arde quando o tudo em que se crê é tarde
Ou pouco ou disfarce para um desejo pleno de desejo,
Pleno de si,
Túrgido de obscenos esgares de amor, voluptuoso na calda tépida
Do manjar divino que se desmancha na saliva grossa do beijo crasso tomado à força.
Deixei a moça que fui morrer nas valsas da vontade bruta,
Eu, ápice de tudo quanto se pode querer, vertigem violenta de absinto e prazer.
Eu, que não posso ser pouco, não posso ser menos
E não me prendo, e não me deixarei prender por regras e estamentos
E condutas sociais,
Que devolvo aos boçais que não se sabem animais antes de gente,
Temendo a virulência dos instintos soberanos e inegáveis,
Suas vidas de pequenos prazeres de furtivos olhares
Sorvidos nas jugulares de quem se permite ser.
O fim não é ainda, não será nesses seres ínfimos,
Antes rumarei pelos desertos incandescentes dos tuaregues mudos por saberem demais,
Por praias agrestes de desnudos coqueiros crestando ao sol à mercê de vendavais
Para, enfim, chegar em mim e em um universo intenso que murmura milênios,
Todos os sentidos a pleno,
Aqui.

2 comentários:
Agora entendo porque demora tanto a atualizar teu blog: visceral, cada frase é um parto! Afirmações de um tempo, de um corpo, sensível no sentido de aflorado.
Uau!! Bjs,
Cida
"Porque há desejo em mim, é tudo cintilância." - Do desejo, Hilda Hilst
cabal, amiga!!! Intensississississsissíma... beijos
alice
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