segunda-feira, 29 de outubro de 2012

NOVO DE NOVO DE NOVO

É preciso resistir
À forma pronta, à “ordem e progresso”,
Ao Discurso do Método.
É preciso demarcar a não-rendição
A leis que separam o corpo do etéreo,
Matéria difusa.
Que sou e não sou
No que pretendo não ser e, no tropeço,
Exponho me exponho,
Imperfeição sem regras
No mundo de regras,
No domínio da razão destituída de suas inúmeras lacunas,
Quimera a devorar vísceras,
A devolver homens feitos casca,
Corpos rijos sem alma, sem dor, sem emoção.
É preciso querer ser uno e exclusivo
Em meandros e miçangas do discurso subjetivo
Andando no mesmo compasso do desatinado desapego consigo, comigo,
Eu, que sou tão distinto de todos e, só por isso,
Sou geral, sou os outros,
Estou no todo.
Pelo movimento de entrar em mim e voltar de mim no mundo,
Posso imaginar um outro mundo,
Inteiramente novo
Conquanto igual.
É na cadência da reapropriação do que é e não pode deixar de ser
Que subverto um destino que nunca existiu,
Mas que teimo em reafirmar
Se não me toco,
Se não me vejo,
Se não me deixo em paz suficiente para explicar tudo o que eu quiser explicar
Da forma que eu quiser explicar,
Sem me negar o movimento interno
Que transmuta a razão em não sei que,
E me lanço ao abismo, olhos fechados,
Sorriso torto
E certeza alguma (nenhuma).
Que ora já sou outro,
E de novo,
E de novo,
E de novo,
E de novo,
E de novo
...

29/10/12

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Morte ao Rei


Da janela escura de meu peito oco
Espreita uma coruja:
Um pio, um silvo, um gorjeio
Lúgubre.
Estou aqui em mim, sentidos vivos,
Coração espremido em minha mão,
Meio do caminho.
Meus olhos cegos voltados para o interior das órbitas...
Não tenho tempo para o mundo fora,
Tudo urge em mim,
Tudo aqui,
Palpitando, sanguíneo
Alvorecer outro.
Eu sei que a mudança é lenta,
Surda e muda
E dói tanto,
Estocadas firmes do punhal ferino
Empunhado por mim mesma.
Cartas à mesa, questão de arrefecer
O Rei posto, o Rei morto
Que criei para me manter cativa
Do mundinho lugar-comum,
Refém da autocomiseração e do escárnio da massa na praça.
Mas eu não sou força que cessa,
Eu sou osso duro,
Eu não me faço de tonta
Para não ser julgada louca,
E se calo minha boca,
É na defesa de minha energia sagrada,
Que não há de alimentar nada mais que me ponha prostrada
Diante do algoz inventado,
Espreitando no brilho desumano e megalômano
Da fantasia de perfeição
Que urdi com fios de ouro para ti,
Pai,
Fugido há tanto,
Morador espectral da minha cabeça.
Engano.

16/9/2012