terça-feira, 6 de setembro de 2011

ERRÁTICO

A poesia nunca está onde se teima em precisa-la,
Ela se esgueira, sorrateira,
Pelos cantos da sala do não estar, do não ser,
Negando tudo com que se intenta defini-la,
Perversa, subversiva,
Na madrugada insone de ansiedade
Do que não se sabe,
Mas se insiste em tentar conter num jarro pequeno demais.
A poesia não está nas palavras escritas,
Não está na tinta da esferográfica,
Não está em graças pálidas de ideias inexatas,
Na confusão cotidiana da razão insana
De quem se pretende normal e juiz do outro.
Eu, que sei tão pouco,
Não posso pretender poesia
Senão onde ela não se fia
E no que não se pode confiar de todo.
É no descompasso do erro,
No tropeço da falta,
No mundo que, por mais que eu escreva, se cala,
E no que irrompe, venenoso,
Pelos espaços vazados entre as palavras,
Que a encontro
Rindo uma risada ferina,
Tirando com a minha cara.

6-9-11

DESAPEGO

Eu quero as coisas simples,
Desprovidas de valores,
Que já não sei mais julgar,
E quantas vezes já não sei tampouco querer.
A minha vida se despega, leve, dos meus dedos,
E não luto, não me esforço por voltar
Ao inútil controle de antes,
Porque a vida é sempre o que está além das razões pequenas dos homens,
É o que não se quantifica nem se especifica,
É o que está no profundo de cada ser,
E, assim, é o próprio sentido do divino.
Desaprendi a amar, a querer,
A esperar qualquer coisa de um momento que não virá,
Porque será sempre outra coisa.
Eu quero antes amar quando já não penso ser possível,
Desejar o que parece inverossímil,
Abrir as portas do que julgo, do que penso,
Porque nos outros habitam universos tão distintos
Que imagino que o amor seja aceitar
A singularidade de cada destino.
Eu quero pensar o suficiente para não ser desatino feito gente,
Mas deixar que meu instinto me aponte o caminho,
Com os olhos cristalinos que enxergam do profundo da alma,
E o medo abandonado, esquecido.

5-9-11

PERSPECTIVA

Vila Mariana,
Janela aberta.
A vida sinuosa e muda
No calor de uma noite invernal,
Paradoxo.
Eu, sentada no escuro do quarto estreito,
Indago o futuro, à espreita do que virá,
Procuro respostas para questões que não sei,
Mas não as deixo de me perguntar.
Um carro ou outro cruzam o asfalto
Enquanto penso alto em tudo o que não é lei,
No pouco que tenho e que temo perder.
A vida, no entanto, é a medida
Do que está além,
De tudo quanto não posso controlar.
Tenho tentado com afinco o desapego.
Tantas definições, tantas certezas
Fizeram de mim uma pessoa triste,
Na tentativa torta de conduzir e modelar
A matéria fina e volátil, fugaz.
Os braços rijos e as mãos crispadas
Aos poucos cedem lugar a uma pulsação lenta,
Experimentando uma crença qualquer no que virá,
Em quem está comigo,
No que não consigo definir, mas que por isso é mais fecundo, é mais vivo
Que todas as ideias pré concebidas que alimentei como verdades absolutas.
Neste ponto, descubro o quão errada estive por longo tempo,
No objetivo ferrenho de me preservar da dor.
Quanto dor a mais venho suportando
Por não me permitir arriscar o desconhecido,
Por agarrar-me a uma fórmula gasta
Que, para meu próprio pasmo,
Sequer fui eu a criar?
Mesmo que não esteja sendo fácil -
Dúvidas, medos, momentos de total descompasso com a realidade do mundo,
Que já não sei com certeza de nada,
Que vez por outra pego o atalho errado
E me encontro perdida em minha indefinição -
Algo de mais belo, se menos seguro,
Começa a insurgir-se por entre os muros de contenção
Da minha armadura de batalha
Soldada para um mundo-cão.
No momento em que admito minha ignorância
Quanto ao mundo, aos outros, ao que será,
Alguma porta, em algum lugar, se abre,
Alguma coisa em mim se expande e vibra,
Minhas feridas se fecham, aliviadas,
Porque me permito acreditar que posso ser amada
Da mesma forma que sei amar.
Se hoje não sei se tenho amor, se hoje estou sem norte,
Algo de mais belo e forte renasce em mim:
A certeza de que, quando tiver de ser, será.

5-9-11