terça-feira, 8 de junho de 2010

HÁ OUTROS ANIMAIS NA PRAÇA




Ah, se as outras crianças

Quisessem brincar comigo.

Elas querem os meus brinquedos,

Mais novos, mais bonitos, coloridos,

Mas não querem brincar comigo

Porque tenho caninos compridos

Demais.

As outras crianças riem do que digo

Achando graça,

Mas olham com um desprezo quando eu passo

Que o meu coração sanguíneo trinca e dói.

Eu queria tanto ser aceita pelas crianças

Porque também sou criança

E me afeiçoo,

Crianças são cruéis, no entanto,

Vêem-me em prantos e só podem rir

Dos pelos de minhas faces e mãos.

Em um instante há de passar esta dor,

Depois do tufão de lágrimas,

De abrir o peito com os dedos,

De voltar a sentir o ombro esquerdo,

De me olhar no espelho e ver com meus olhos de lince

Que as crianças tem medo de brincar comigo

Porque sou um animal

Ainda que domesticado.

Não entendem o que eu digo

Mesmo eu tendo estudado a língua humana

Nos tantos anos em que vivo entre humanos.

E mesmo que eu raspe meus pelos

Eles voltam a crescer, espessos.

E mesmo que eu finja ver com os olhos deles

Meu olhar é mais certeiro.

E mesmo eu diga para mim que não ligo

Para os olhares zombeteiros,

Para as críticas espremidas entre dedos,

Para as faces contraídas de desprezo,

Uma hora meu corpo fica cheio

De dor e água,

E haja lágrima para transbordar minha tristeza e raiva.

Tudo bem.

Uma hora passa.

E com meu olhar que vai além

Posso notar outros animais disfarçados na praça,

Com quem posso brincar

Sentindo o que sentem almas afins.

25/3/07

segunda-feira, 7 de junho de 2010

EFEMÉRIDE


Então travou garganta

No espasmo mudo do espanto, tanto.

Meu tempo passando

E eu aqui.

Pensei que morri,

Mas não desta vez.

Não tenho mais ouro debruando sonhos tolos,

Não há nada mais que eu queira além de mim.

Nada há de mais importante que a certeza de que sou quem sou e de que posso arcar com [isto,

Comigo.

Os amigos, amargos uns, outros agora.

Por que me importar com convenções, se quero vida?

Seja rasgo de luz cada dia,

Desperta em mim a energia de mudar e ser nova sempre,

Acumulando com gosto os anos que me forem permitidos viver,

Lancinando algo aberto que não a batida chaga no peito,

Que seja o centro do mundo o meu coração extremo.

Arranco as garras do amargor e do veneno

Que roubam o viço das pequenas descobertas diárias.

Só morrerei quando esquecer de me surpreender com as bobagens sublimes que não se [pode divisar,

Percebidas na sutileza de sentidos outros,

Um estalo de corpo,

Fuligem ao vento e eu canto, amuleto.

Que eu seja sempre instrumento

Do algo maior que alguns chamam Deus,

Mas não tem nome de fato pela impossibilidade de classificação restritiva na língua e no [entendimento parco.

Podendo ser o que quiser,

Deixando canais expostos para receber o toque astral,

Expurgar um outro que fui, não sou mais,

Sinais do tempo que não se mede em ponteiros

Além do nascer e por, nascer e por

Do sol, dos homens, da vida.

Sou ferida súlfur que arde para explodir ferinas fagulhas ativas,

Exorto à ação:

Seja fulgural

Ante à predileção pela frugalidade e o banal.

Há violetas em álcool chamuscando um céu algoz

De boçais cultivadores do óbvio, do jornal e da vitrine.

Não caiba em si

O dia e você,

Seja transversal do sol,

Engastar cometas em capa de cristal,

Veludo azul que embrulha o mundo

Que quero real para mais, muito mais

Que permitem os que não se permitem

Ser alguém de fato.

Não pago barato as lentes épicas

Que embuti no lugar das córneas do lugar comum,

Mas não peço amém a ninguém,

A nenhum porco roliço do deixa-disso.

Eu quero mais,

Areia movediça não me para,

Não me impede,

Eu feroz,

Cuja cantilena, voz da hiena escarnecendo o ínfimo,

Ecoa em tímpanos beduínos ávidos por destino tal qual,

Até que sejamos a individual tribo

Coletiva de entes sós não solitários.

domingo, 6 de junho de 2010

A CADA GOTA


A vida tateia surda por seus domínios obscuros
Tentativa e erro de suportar a dor,
Mas e o meu afrodisíaco?
Tentativa e erro, o sexo vem,
Mas é resto, restolho, é pouco,
Ainda que o estímulo para acontecer
Seja a gota de sêmen, a gota de sangue,
A gota sagrada, vaticínio.
Vasculho artérias e veias em busca do amor,
Em busca da faísca que risque e queime meu desejo,
Em busca da origem de tudo,
Da origem do homem,
Da origem da dor que levou para longe o meu desejo.
Ensejo, a gota de leite inspirador que me leve,
A gota de minha dor que se desvaneça,
A corda de minha história que se desenrole lenta,
Sem pressa, mas atenta e vibrante e sempre queira.
Enquanto não posso, enquanto me foge o furor de anos
Jovens, nos quais eu deveria ser sem engano,
Enquanto a dor me corta o cenho e o cérebro e minhas idéias,
Hei de procurar a gota etérea
Que há de me fazer gozar em bólides,
O meu celeste afrodisíaco.
Mas se não existir tão potente afrodisíaco,
Ou mesmo se seu poder for ínfimo,
Saberei doer de uma vez e encontrar a morte?

2002