
Ah, se as outras crianças
Quisessem brincar comigo.
Elas querem os meus brinquedos,
Mais novos, mais bonitos, coloridos,
Mas não querem brincar comigo
Porque tenho caninos compridos
Demais.
As outras crianças riem do que digo
Achando graça,
Mas olham com um desprezo quando eu passo
Que o meu coração sanguíneo trinca e dói.
Eu queria tanto ser aceita pelas crianças
Porque também sou criança
E me afeiçoo,
Crianças são cruéis, no entanto,
Vêem-me em prantos e só podem rir
Dos pelos de minhas faces e mãos.
Em um instante há de passar esta dor,
Depois do tufão de lágrimas,
De abrir o peito com os dedos,
De voltar a sentir o ombro esquerdo,
De me olhar no espelho e ver com meus olhos de lince
Que as crianças tem medo de brincar comigo
Porque sou um animal
Ainda que domesticado.
Não entendem o que eu digo
Mesmo eu tendo estudado a língua humana
Nos tantos anos em que vivo entre humanos.
E mesmo que eu raspe meus pelos
Eles voltam a crescer, espessos.
E mesmo que eu finja ver com os olhos deles
Meu olhar é mais certeiro.
E mesmo eu diga para mim que não ligo
Para os olhares zombeteiros,
Para as críticas espremidas entre dedos,
Para as faces contraídas de desprezo,
Uma hora meu corpo fica cheio
De dor e água,
E haja lágrima para transbordar minha tristeza e raiva.
Tudo bem.
Uma hora passa.
E com meu olhar que vai além
Posso notar outros animais disfarçados na praça,
Com quem posso brincar
Sentindo o que sentem almas afins.
25/3/07
