O que sustenta ainda este corpo cansado?
A nicotina do cigarro?
A vida lá fora, que passa longe do meu alcance
E que só vejo da sacada do 8º andar?
Algo há de me sustentar viva, mas viva mesmo,
Não um arremedo de gente presa ao banco e ao tapete.
Capacho.
Presa ao monitor e à rede que acelerou a vida,
Antes menos “maravilhosa”,
Menos corrida,
Menos repleta de sonhos de glória universal,
Porque antes era pequenina
E simples
E prescindia de adjetivos e de ideais longínquos.
Antes tudo era aqui em mim
E eu era o centro.
Agora me procuro em fragmentos
Que capto em momentos esparsos,
No cigarro que fumo como forma de fugir do espaço opressor
Que me engoliu
E do qual não encontro a porta de saída,
Perdida que estou entre letras e formatos
E o brilho baço do monitor.
Espasmo de dor.
Um laivo.
Mas não morri, não morrerei tampouco
Deste cotidiano louco
Porque existo e resisto dentro de mim,
Do que sinto
E de meus bonitos amores,
Pois que sublimes em sua liberdade de ser muito mais que nomes,
De prescindir da posse,
Porque amo tudo que floresce em seu estado natural,
Seja planta, gente ou animal
Ou as preces que a mim invoco.
Para tudo há um tempo e um lugar,
Para tudo há a hora certa,
E quando eu souber desatar as cordas
Que me amarram as pernas
Saberei achar a porta,
Saberei ir embora sem, contudo, dar as costas a tudo que vivi.
Sem esquecer que o que sou se deve ao que fui,
Assim como o que serei.
Arriscando trôpegos passos à beira do precipício,
Sinto vertigem e fome do espírito,
Mas é a rarefação do ar que há de me entregar
O perfeito fio do raciocínio.
E, no fim desta pequena jornada,
Apenas parte do maior caminho,
Eu, um pouco esgotada,
Serei cada vez mais forte em mim.
Quando os olhos deixarem de buscar a saída
E o negrume já tiver absorvido todo o dia,
Quando eu já não estiver me agarrando a nada,
Eis que então, súbito clarão,
Minha epifania, minha revelação
Surgirá.
E todas as peças que parecem não se encaixar
Formarão o descomunal caos organizado
Do fogo e da fúria
E da loucura
Que por mim se tornou gente,
Pois sou Deus, como ele me é.
Eu sou.
23/5/06

Um comentário:
Adoro esse crucial! tão presente, atual e humano. Amiga, vc não escreve, vc vomita, chove, desafa aos gritos e risos, enfim, vc vaaaaaaaaai e se coloca inteira e verdadeira. Por isso da beleza, beijos alice
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