terça-feira, 22 de setembro de 2009



SELVAGEM

A vontade ferina atravessa uma vontade além,
Implosão interna que não se pode saber bem sem experimentar profundo
Algo de gutural oculto dos olhos mundanos, do jugo dos homens,
Da boca de senhoras silentes em olhos jocosos.
Mas eu sou, energia que se afirma em si,
Rasgando ganas a se crispar eterna em cada coisa da Terra,
Em cada estrela fugidia que brilhava um dia e só vi quando morreu.
Morfeu foi meu silêncio um dia; Orfeu, meu amante;
Para seguir adiante, doravante, que eu adore Afrodite e as vestais,
Imbuída demais de Atena, enxergando através das hipocrisias,
Em mente que pressente tudo que há, transcendendo a cognição
Restritiva, estúpida, mesquinha,
Criada pelos senhores de cartola e meio-fraque.
Eu, querendo a guerra santa, provoco o baque da ruptura com o estanque,
Eu sigo em frente, destemor feito gente,
Feito carne,
Eu, aquilo que arde quando o tudo em que se crê é tarde
Ou pouco ou disfarce para um desejo pleno de desejo,
Pleno de si,
Túrgido de obscenos esgares de amor, voluptuoso na calda tépida
Do manjar divino que se desmancha na saliva grossa do beijo crasso tomado à força.
Deixei a moça que fui morrer nas valsas da vontade bruta,
Eu, ápice de tudo quanto se pode querer, vertigem violenta de absinto e prazer.
Eu, que não posso ser pouco, não posso ser menos
E não me prendo, e não me deixarei prender por regras e estamentos
E condutas sociais,
Que devolvo aos boçais que não se sabem animais antes de gente,
Temendo a virulência dos instintos soberanos e inegáveis,
Suas vidas de pequenos prazeres de furtivos olhares
Sorvidos nas jugulares de quem se permite ser.
O fim não é ainda, não será nesses seres ínfimos,
Antes rumarei pelos desertos incandescentes dos tuaregues mudos por saberem demais,
Por praias agrestes de desnudos coqueiros crestando ao sol à mercê de vendavais
Para, enfim, chegar em mim e em um universo intenso que murmura milênios,
Todos os sentidos a pleno,
Aqui.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Onze anos para trás


Estou mudando a uma velocidade que meu corpo não comporta,
A cara quase torta num esgar de espasmo violento
De congestão.
No fio cortante do meio do caminho
Não sei que fim terá este período,
A cabeça gira, que será de mim?
Laboratório de testes, os onze anos vividos antes
Parecem então tão distantes
Que já não sei precisar
Se fui eu a vivê-los
Ou roubei o enredo de algum romance ruim.
Mas estou aqui, ainda que
Esmerilhando os nervos
Com o medo do novo,
Do contato com o outro,
Da morte de sonhos tontos
Para ganhar em vida o que em conceitos, graças, perdi.
Madrugada alta, me doem as costas,
O choro represado,
Um pássaro dá um pio sequencial e agudo
Que me desperta para a realidade material da vida.
Até minha poesia é outra,
Até minha rima é nova,
E só posso rimar quando deixo
O antes assimilado escoar pelo ralo, se esvair,
Porque agora já não sei mais,
Agora estou e não estou aqui,
É tudo outro, novo, dadivoso em mim.

19/08/09