quinta-feira, 26 de maio de 2011

TOUR DE FORCE

Onde estavam então essas luzes todas –


Treliças brilhantes dos prédios à noite,


Lembranças perenes de que nunca estou só –


Quando fez-se negrume em mim,


Que só queria morrer?


Qual o que.


Impulsos contrários assemelhados:


Minha pretensa pulsão de morte


É só uma forma mutante


De querer viver mais e mais,


Penetrando no breu mais retinto


Para dali sair, vida e gozo.


Mas não mais,


Basta de açoite no dorso,


Quando a mão que empunha o chicote é a minha própria mão.


Saí da armadilha funda que cavei,


Fiz-me erguer e luzi novamente


Entre as gentes e sua pressa


No caminho para casa,


Na ida à farmácia e no jogo da lotérica.


Depois da biblioteca


No prédio de formas modernas,


Atravesso a ponte que fende a urbe carregada.


Suspensa sobre a maré de carros suando vermelho e branco,


Volto à exata noção do meu tamanho diante da infinidade desse mundo


Que cabe aqui,


Soberana cidade de franzido cenho


E um alento sereno sob o frio de asfalto que se alimentou do mato que um dia existiu.


Estou em mim e nos outros,


Deixando no passado os falsos pecados que eu quis crer como pecados,


Minhas mãos duras de apertarem-se vazias,


Porque agora eu sou vida.


Sons maquinais, ventos, sussurros, risos,


Embrenho-me silenciosa no coletivo,


Atenta à multiplicidade de ruídos


E cores e mitos e torres e toda a sorte de elementos citadinos,


Abraço-te com meu corpo aberto nos ares,


Nossas veias confundidas, correndo também em minhas veias o concreto amolecido...


Aqui nasci, sua filha até a última gota do meu espírito,


Eu, megalópole no corpo franzino


Que São Paulo molda na poesia fugidia do cotidiano.




26/5/11