Onde estavam então essas luzes todas – Treliças brilhantes dos prédios à noite,
Lembranças perenes de que nunca estou só –
Quando fez-se negrume em mim,
Que só queria morrer?
Qual o que.
Impulsos contrários assemelhados:
Minha pretensa pulsão de morte
É só uma forma mutante
De querer viver mais e mais,
Penetrando no breu mais retinto
Para dali sair, vida e gozo.
Mas não mais,
Basta de açoite no dorso,
Quando a mão que empunha o chicote é a minha própria mão.
Saí da armadilha funda que cavei,
Fiz-me erguer e luzi novamente
Entre as gentes e sua pressa
No caminho para casa,
Na ida à farmácia e no jogo da lotérica.
Depois da biblioteca
No prédio de formas modernas,
Atravesso a ponte que fende a urbe carregada.
Suspensa sobre a maré de carros suando vermelho e branco,
Volto à exata noção do meu tamanho diante da infinidade desse mundo
Que cabe aqui,
Soberana cidade de franzido cenho
E um alento sereno sob o frio de asfalto que se alimentou do mato que um dia existiu.
Estou em mim e nos outros,
Deixando no passado os falsos pecados que eu quis crer como pecados,
Minhas mãos duras de apertarem-se vazias,
Porque agora eu sou vida.
Sons maquinais, ventos, sussurros, risos,
Embrenho-me silenciosa no coletivo,
Atenta à multiplicidade de ruídos
E cores e mitos e torres e toda a sorte de elementos citadinos,
Abraço-te com meu corpo aberto nos ares,
Nossas veias confundidas, correndo também em minhas veias o concreto amolecido...
Aqui nasci, sua filha até a última gota do meu espírito,
Eu, megalópole no corpo franzino
Que São Paulo molda na poesia fugidia do cotidiano.
26/5/11
